Vida de Santa Tarsis

Número

pt.019

Título

Vida de Santa Tarsis

Vida de Santa Tais

Fonte latina original

Vita Sanctae Thaisis (lt.019)

Localização textual

Integra um manuscrito com cerca de vinte textos diferentes intitulado (Códice Alcobacense 266) Colecção Mystica de Fr. Hylario da Lourinhãa, Monge Cisterciense de Alcobaça, o qual transcreveo o seguinte no idioma Portuguez , situando-se entre os fólios 66r e 67v.

Língua(s)

Português antigo

Tradutor

 

Embora no início do códice se afirme que a tradução dos textos nele existentes foi obra de Frei Hilário (de que praticamente nada sabemos, à exceção de que era natural da Lourinhã e monge no Mosteiro de Alcobaça – Castro et alii, 1982/83: 5), tal dado não parece fiável. De facto, embora, em termos paleográficos, o manuscrito onde se encontra a história de Tarsis seja datado do século XV, alguns textos nele incluídos possuem uma linguagem mais antiga e há três letras diferentes, o que indicia que os copistas foram pelo menos três. Segundo Castro et alii (1982/83: 6), é possível que os três tenham trabalhado no scriptorium de Alcobaça durante o tempo em que foi abade do Mosteiro D. Estêvão de Aguiar (entre 1431 e 1446), competindo a frei Hilário a compilação dos textos e eventualmente a cópia ou tradução de alguns.

Contextualização da tradução

 

O testemunho do Códice Alcobacense é uma compilação de vidas de santos que ficou conhecida por Colecção Mystica de Fr. Hylario da Lourinhãa, Monge Cisterciense de Alcobaça, o qual transcreveo o seguinte no idioma Portuguez, designação atribuída no século XVIII, embora o manuscrito seja datado do século XV. A vida de Tarsis ocupa os fólios 66r-67v, correspondendo à terceira narrativa do manuscrito sobre a vida de uma mulher que se converteu.

Data

A datação do códice alcobacense 266 é polémica, dado que há divergências significativas a nível das datas para as quais os investigadores apontam. Estudos codicológicos recentes apontam para que a datação do códice se situe entre 1431 e 1446. Tal não significa, contudo, que o texto tenha sido produzido entre estes parâmetros temporais, embora haja quem defenda que o códice resultou de um projeto unitário e que, por isso, os textos deveriam ter sido produzidos nesse tempo (vide Sobral, 1993: 673).

Local

O texto terá sido traduzido/copiado provavelmente no scriptorium do Mosteiro de Alcobaça, de onde é originário o manuscrito em que se insere.

Alterações de estrutura/conteúdo

 

Texto hagiográfico que narra a vida de Tarsis, cuja beleza fazia perder muitos homens, incluindo um abade de nome Panúncio. Este desejava estar com ela e pediu-lhe para o fazer às escondidas dos homens, tendo ela retorquido que seria possível fugir aos olhos dos homens, mas não aos olhos de Deus. Perante esta resposta, o abado perguntou-lhe se sabia que teria de prestar contas a Deus pelas almas que conduzia à perdição. Perante esta conversa, Tarsis decidiu queimar todos os seus bens e mudar de vida com a ajuda do abade. Este colocou-a em reclusão e ensinou-a a rezar. Ao fim de três anos surgiu um sinal de Deus que indicava o perdão dos pecados de Tarsis, tendo esta falecido duas semanas depois.

Interferências textuais

Não se conhecem.

Lista de testemunhos manuscritos

 

Conhece-se um testemunho que traduz a versão latina da história. Encontra-se em Lisboa, na Biblioteca Nacional de Portugal, inserido no manuscrito com a referência ALC. 462, procedente do Mosteiro de Alcobaça (Códice Alcobacense 266), entre os fólios 66r-67v. O manuscrito existe em forma de microfilme na Torre do Tombo (Torre do Tombo, Mf 185), anterior proprietário.

Lista de Edições antigas

Em Português, há uma edição antiga desde texto, numa versão abreviada, intitulada ‘Santa Thais’, na obra Historial das vidas e feitos heroicos, e obras dos santos, de Frei Diogo do Rosário (1567).

Enquadramento dos testemunhos

 

Para além do testemunho guardado em Lisboa, na Biblioteca Nacional de Portugal, inserido no manuscrito com a referência ALC. 462, procedente do Mosteiro de Alcobaça, existe uma outra tradução do texto que aparentemente deriva não do texto latino, mas de uma cópia em vernáculo. Este testemunho integra um exemplar da obra Flos Sanctorum existente na Biblioteca Central da Universidade de Brasília (ver Notas). Segundo Machado Filho (2001), esta última tradução é mais antiga, remontando provavelmente ao século XIV.

Os dois testemunhos apresentam vários pontos de contacto, mas o procedente do Flos Sanctorum apresenta mais detalhes, sendo também mais extenso.

Outros dados

O códice alcobacense 266 é um manuscrito em pergaminho encadernado que está escrito em carateres góticos de finais do século XIV/inícios do século XV numa só coluna de 30 linhas, com iniciais a cores e filigranadas. As folhas têm a dimensão de 263 × 180 mm, apresentando manchas de humidade.

Antes da Biblioteca Nacional, os seus proprietários foram o Arquivo Nacional da Torre do Tombo e o Mosteiro de Alcobaça.

Edições

 

CASTRO, Ivo t Alii (1982-83), Vidas de Santos de um Manuscrito Alcobacense: Vida de Tarsis, Vida de uma Monja, Vida de Santa Pelágia, Morte de São Jerónimo, Visão de Túndalo, Revista Lusitana. Nova Série 4, 20-29

FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN (1997), Vida de Tarsis. In História e Antologia da Literatura Portuguesa – Séculos XIII-XIV, nº 03. Lisboa: FCG, 70.

MACHADO FILHO, A. V. L. (2001), Aquisse começa huũ exẽplo perque pode homẽ entẽder algũas diferenças antre dous manuscritos que de conssuũ tratam da uida de Tassis molher que foy muy pecador, In Programa para a História da Língua Portuguesa. Salvador, Bahia, Brasil: Universidade Federal da Bahia.

NUNES, J. J. (1908), Textos antigos portugueses III. [Vida de Tarsis], Revista Lusitana 11, 211-212.

 

Bases de dados online:

TITUS - Old Portuguese Corpus: Vida de Tarsis

Corpus Informatizado do Português Medieval: Vidas de Santos de um Manuscrito Alcobacense - Séc. XIII/XIV, VS1


Estudos

Bases de dados online:

Philobiblon - BITAGAP:

Texid 1084; Manid 1143; CNum 1072; Manid 1153; CNum 10856; Manid 1946; CNum 11106

 

Referências bibliográficas:

ASKINS, Arthur L-F. (1995), The MS 'Flos Sanctorum' of the Universidade de Brasília: an early reflex in Portuguese of the hagiographic compilation of Valerio del Bierzo. In SANTOS, João Camilo dos e WILLIAMS, Frederick G. (ed.) O Amor das Letras e das Gentes. In honor of Maria de Lourdes Belchior Pontes. Santa Barbara : University of California, Santa Barbara - Center for Portuguese Studies, 49-50.

CEPEDA, Isabel Vilares (1995), Bibliografia da Prosa Medieval em Língua Portuguesa. Lisboa: Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, 223-224.

COSTA, Sara Figueiredo (2003), A construção dos tempos do ‘passado' em alguns textos do século XV - Sete Vidas de Santos do Códice Alconbacense 266, Actas do XVIII Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística, 267-273.

DUARTE, L. F. (1993), Vida de Santa Tarsis. In LANCIANI, Giulia e TAVANI, Giuseppe (dir.), Dicionário da Literatura Medieval Galega e Portuguesa. Lisboa: Caminho, 675.

MACHADO FILHO (2000), Edição paleográfico interpretativa da "Vida de Tassis" de um Flos Sanctorum do século XIV. Salvador: Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia.

MACHADO FILHO, A. V. L. (2001), Aquisse começa huũ exẽplo perque pode homẽ entẽder algũas diferenças antre dous manuscritos que de conssuũ tratam da uida de Tassis molher que foy muy pecador, In Programa para a História da Língua Portuguesa. Salvador, Bahia, Brasil: Universidade Federal da Bahia.

MACHADO FILHO, Américo, V. L. (2003), Um ‘Flos Sanctorum' do século XIV: edições, glossário e estudo lingüístico. Salvador: Universidade Federal da Bahia.

MACHADO, Ana Maria (2011), Desocultações da Intimidade nas Vidas dos Padres do Deserto, Romance Philology 65.1, 107-120.

MARTINS, Ana Maria (1986), Aspectos da pontuação num manuscrito medieval português. In Critique et Édition de Textes. Actes du XVIIe Congrès International de Linguistique et Philologie Romanes 9. Aix-en-Provence: Université de Provence, 255-266

Notas

Há uma outra tradução do texto que aparentemente deriva não do texto latino, mas de uma cópia em vernáculo. É um texto que integra um exemplar da obra Flos Sanctorum existente na Biblioteca Central da Universidade de Brasília (Divisão de Coleções Especiais: 182 - Olim; Cofre [sem cota]). Esta obra (testemunho 2) possui cerca de três dezenas de textos, englobando vidas de santos e pequenos tratados morais. Trata-se de uma cópia provavelmente de uma versão em vernáculo que não se conhece (Silva et al., 2009: 199; Machado Filho, 2009: 22) e é de fins do século XIV ou inícios do seculo XV e regista a vida de santa Tarsis, que terá surgido entre 1376 e 1425, entre os fólios 63v e 64v. Esta compilação é composta por 82 fólios em pergaminho com duas colunas de 36 linhas, com folhas com dimensões de 330 x 223 mm e está escrita em gótica minúscula. O manuscrito foi adquirido em 1964, tendo pertencido até então a Serafim da Silva Neto e, anteriormente, a Jorge de Faria. Existe na Biblioteca Nacional de Lisboa cópia moderna deste manuscrito (testemunho 3): Mss 211, n. 1, páginas 249-252.