Livro das Aves

Número

pt.017

Título

Sem título no manuscrito original, é conhecido como ‘Livro das Aves’, nome mais consensual, que surgiu com Serafim da Silva Neto que, na edição parcial do texto (1956), o intitulou dessa forma.

Apesar disso, há variantes: Azevedo (1925: 128-147) intitulou o texto de ‘História natural das aves’ e Mário Martins (1956) preferiu ‘Tratado sobrenatural das aves’ (ver estudo A simbologia mística dos nossos bestiários).

Fonte latina original

De Auibus (De Bestiis et Aliis Rebus) (lt.017)

Localização textual

Obra com o mesmo nome: Livro das Aves

Língua(s)

Português antigo

Tradutor

 

Não se conhece o tradutor, embora pareça ser um religioso, dada a referência, no texto, a um seu “irmão”, frei Ramiro.

Contextualização da tradução

 

Segundo o texto, a tradução terá sido levada a cabo a pedido de um frade, presumivelmente a outro frade: “E por tanto me trabalhey meu irmão ffrey Ramiro que as posesse en aquesta obra que eu fiz a teu Rogo”. Muito provavelmente, teria por objetivo a educação dos elementos do mosteiro onde foi elaborado (Ribeiro: 2004, 2).

O texto da tradução foi publicado pela primeira vez em 1925, por Pedro de Azevedo, na Revista Lusitana (ver referências bibliográficas).

Data

Pela letra, Pedro de Azevedo considera que a tradução terá sido elaborada no século XIV.

Local

Desconhecido.

Alterações de estrutura/conteúdo

 

Tratado moral, tal como o texto original, que descreve de forma alegórica características de aves e seus costumes. Até nós chegou um texto truncado, em que, tendo em conta o conjunto do texto de origem, se descrevem poucas aves: pomba, açor, tortor, galo, ema, andorinha, cegonha, pássaro (sem nome definido), pardal, noitibó, pavão e águia.

O texto está dividido em “tractados”, cada um relacionado com uma ave, sendo que as características destas são depois aplicadas ao homem. É marcado por considerações teológicas, recorrendo profusamente a exemplos bíblicos. Dadas as diferenças encontradas, tanto a nível textual como nas iluminuras que o manuscrito possui, não será resultado da tradução de um dos manuscritos latinos existentes em Portugal (Clark: 1996, 88; Oliveira: 2008, 64). Ribeiro (2004, 5, 8), contudo, relaciona-o com a cópia latina proveniente do Mosteiro do Lorvão, embora reconheça que há liberdades textuais por parte do tradutor.

Interferências textuais

Há sobretudo interferências originadas em textos bíblicos, sendo visível que há adições e modificações, que Clark atribui ao tradutor, considerando que os desenhos existentes demonstram influência francesa (1996, 88).

Lista de testemunhos manuscritos

Um manuscrito, que se encontra na Universidade de Brasília, Biblioteca Central (Divisão de Coleções Especiais, Cofre [sem cota]).

Lista de Edições antigas

Não existem edições impressas antigas.

Enquadramento dos testemunhos

 

Existe um único testemunho manuscrito, cuja história não conhecemos. Provavelmente terá sido escrito apenas por uma mão, que Pedro de Azevedo identifica como pertencente ao século XIV, a partir de uma versão latina do texto que também é desconhecida.

De anteriores proprietários, sabemos apenas que pertenceu ao Dr. Jorge de Faria, que o adquiriu em Vila do Conde e o depositou na Biblioteca Nacional de Lisboa, onde foi copiado por Pedro de Azevedo. Foi depois adquirido pelo Professor Serafim da Silva Neto e levado para o Brasil. Este manuscrito encontra-se, presentemente na Universidade de Brasília, instituição que o comprou em 1964.

Outros dados

Manuscrito num estado de conservação muito precário, sendo que o início e o fim do texto desapareceram. É composto por nove fólios soltos e incompletos (o quarto fólio, com as colunas 13-16, está cortado) em pergaminho com as medidas 320 x 220mm, escritos frente e verso em duas colunas de 36 linhas com alguns estragos. Foram numerados, modernamente, a lápis.

Segundo Ribeiro (2004, 2), estamos perante não um, mas dois fragmentos.

Os títulos dos capítulos estão escritos a vermelho, sendo as letras capitais escritas a vermelho e azul. Possui algumas iluminuras sem dourados e emolduradas a preceder cada capítulo, com animais (açor, pomba, ema, pavão, águia), plantas e a visão de Ezequiel com os símbolos dos quatro Evangelistas.

Edições

 

Edições modernas do texto:

AZEVEDO, Pedro (1925). "Uma versao portuguesa da historia natural das aves do sec. XIV," Revista lusitana 25, 128-147

ROSSI, N. et alii (1965), Livro das aves. Reprodução fac-similar do manuscrito do séc. XIV; introdução, leitura crítica; notas e glossário. In Dicionário da Língua Portuguêsa. Textos e Vocabulários, 4. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro.

 

Edição facsimilada do texto português:

http://www.arquimedeslivros.net/product_info.php?cPath=43&products_id=1665&osCsid=d75051829b640853a4ea31878825cf67

Estudos

Bases de dados online:

Philobiblon – BITAGAP:

Texid 1096; Manid 1151; CNum 1117

Arlima: http://www.arlima.net/ad/aves_livro_das.html

 

Referências bibliográficas:

BARROS, Maria Eurydice de (2004), “O Livro das Aves. Fragmento de um manuscrito desaparecido”. In I Seminário Brasileiro sobre Livro e História Editorial. Rio de Janeiro: Casa de Rui Barbosa.

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Notas