Visão de Túndalo

Número

pt.016

Título

Visão de Túndalo

Visão de Túngulo

Visão de Túngalo

Do cavaleiro Tungullo

Estoria dhuun caualeyro a que chamauan tungulu


Fonte latina original

Visio Tungdali

Visio Tnugdali

Visio Tundali (lt.016)


Localização textual

Os testemunhos remanescentes portugueses existem em dois manuscritos:

Testemunho 1: Integra um manuscrito com cerca de vinte textos diferentes (códice alcobacense 266) intitulado Colecção Mystica de Fr. Hylario da Lourinhãa, Monge Cisterciense de Alcobaça, o qual transcreveo o seguinte no idioma Portuguez, encontrando-se entre os fólios 124r e 137r.

Testemunho 2: Integra um manuscrito (códice alcobacense CCXLIV (ALC. 211)) com cerca de quatro textos diferentes. O texto situa-se entre os fólios 90v e 104v.

Língua(s)

Português antigo

Tradutor

 

Testemunho 1: Embora no início do códice alcobacense 266 se afirme que a tradução dos textos nele existentes foi obra de Frei Hilário (de quem praticamente nada sabemos, à exceção de que era natural da Lourinhã e monge no Mosteiro de Alcobaça – Castro et alii, 1982/83: 5), tal dado não parece fiável. De facto, embora, em termos paleográficos, o manuscrito seja datado do século XV, alguns textos nele incluídos possuem uma linguagem mais antiga e há três letras diferentes, o que indicia que os copistas foram pelo menos três. Segundo Castro et alii (1982/83: 6), é possível que os três tenham trabalhado no scriptorium de Alcobaça durante o tempo em que foi abade do Mosteiro D. Estêvão de Aguiar (entre 1431 e 1446), competindo a frei Hilário a compilação dos textos e eventualmente a cópia ou tradução de alguns.

Testemunho 2: O códice alcobacense CCXLIV (ALC. 211) terá sido traduzido, conforme informação que contém, por Frei Zacharias de Payopélle (Pereira, 1895: 100).

Contextualização da tradução

 

Testemunho 1: O testemunho do Códice Alcobacense 266 surge numa compilação de vidas de santos que ficou conhecida por Colecção Mystica de Fr. Hylario da Lourinhãa, Monge Cisterciense de Alcobaça, o qual transcreveo o seguinte no idioma Portuguez, designação atribuída no século XVIII, embora o manuscrito seja datado do século XV.

Testemunho 2: O testemunho do Códice Alcobacense 244 surge integrado numa compilação de textos que inclui também o Catecismo da Doutrina Cristã, o Virgeu de Consolaçom e o Tractado das meditações e pensamentos de Sã Bernardo.

Estes dois testemunhos em português de finais do século XIV ou início do XV, aparentemente, e pelas diferenças que apresentam, são traduções de originais diferentes, que não estão definidos.

Data

Testemunho 1: A datação do códice alcobacense 266 é polémica, dado que há divergências significativas a nível das datas para as quais os investigadores apontam. Estudos codicológicos recentes apontam para que a datação do códice se situe entre 1431 e 1446. Tal não significa, contudo, que o texto tenha sido produzido entre estes parâmetros temporais, embora haja quem defenda que o códice resultou de um projeto unitário e que, por isso, os textos deveriam ter sido produzidos nesse tempo (vide Sobral, 1993: 673).

Testemunho 2: Segundo Pereira (1895: 99), o códice aparenta ser do século XV.

Local

O texto dos testemunhos existentes terá sido eventualmente traduzido/copiado no scriptorium do Mosteiro de Alcobaça.

Alterações de estrutura/conteúdo

 

As duas traduções portuguesas apresentam bastantes diferenças estruturais e de conteúdo. Segundo Nunes (1903-1905: 240), o códice 244 apresenta particularidades não presentes no testemunho do códice 266, como nome e pátria do vidente ou os reis que o cavaleiro encontrou no paraíso. Para além disto, o testemunho termina com a indicação do ano em que Túndalo teve a visão e menciona quem escreveu (traduziu) a história. Por seu lado, o códice 266 conclui com uma descrição sobre os corpos gloriosos.

Interferências textuais

Não é possível verificar a existência ou não de interferências textuais, dado que não se conhece a fonte latina que serviu de base à tradução. Sabemos apenas que os dois testemunhos portugueses remanescentes apresentam diferenças entre si.

Lista de testemunhos manuscritos

 

Dos cerca de 250 testemunhos ainda existentes, dois encontram-se em Portugal (finais do século XIV, inícios do século XV).

Testemunho 1: o Códice Alcobacense 266, guardado em Lisboa, na Biblioteca Nacional de Portugal, está inserido no manuscrito com a referência ALC. 462, procedente do Mosteiro de Alcobaça. O manuscrito existe em forma de microfilme na Torre do Tombo (Torre do Tombo, Mf 185), anterior proprietário.

Testemunho 2: trata-se do códice alcobacense 244 (211), guardado em Lisboa, na Biblioteca Nacional de Portugal.

Lista de Edições antigas

Em Português, não há edições antigas desde texto.

Enquadramento dos testemunhos

 

Segundo León Acosta (1993: 684), os testemunhos portugueses são fruto já da transmissão tardia da narrativa, na medida em que apresentam várias diferenças em relação à história tradicional. Aparentam também ser traduções de originais diferentes:

Testemunho 1: segundo Nunes (1903-1905: 246), alguns termos utilizados são típicos do sul, sendo que a letra do testemunho é idêntica à que surge na Lenda de Barlaão e Josafate (no mesmo códice). Isto permite pensar que o autor do texto seria do sul do reino.

Testemunho 2: o testemunho que apresenta mais pormenores é a do códice alcobacense 244 (211). Segundo Nunes (1903-1905: 240), dada a linguagem utilizada, será o testemunho mais antigo.

Outros dados

Testemunho 1: o Códice 266, em pergaminho encadernado, em que se insere este testemunho está escrito em carateres góticos de finais do século XIV/inícios do século XV numa só coluna de 30 linhas, com iniciais a cores e filigranadas. As folhas (171) têm a dimensão de 263 × 180 mm, apresentando manchas de humidade.

Antes da Biblioteca Nacional, os seus proprietários foram o Arquivo Nacional da Torre do Tombo e o Mosteiro de Alcobaça.

Testemunho 2: o Códice 244, em pergaminho e encadernado em carneira sobre pasta, é composto por 104 folhas (270x210 mm), com uma só coluna. Está escrito em carateres góticos do século XV (Pereira, 1895: 99-100).

Edições

 

Testemunho 1 – Códice 266:

Nunes, J. J. (1903-1905), Textos antiguos portugueses. I: A visão de Tundalo ou o cavalleiro Tungullo, Revista Lusitana 8, 239-262.

Castro, Ivo, Ana Maria Martins, Luiz Fagundes Duarte, José Manuel Feio e Patrícia Villaverde Gonçalves (1982-1983). Vidas de santos de um manuscrito alcobacense: Vida de Tarsis, Vida de uma monja, Vida de santa Pelágia, Morte de são Jerónimo, Visão de Túndalo. Revista Lusitana, n. s., 4, 5-52 (sobre este testemunho: 38-52).

Texto online:

Corpus Informatizado do Português Medieval: Vidas de Santos de um Manuscrito Alcobacense - Séc. XIII/XIV, VS5

Testemunho 2 – Códice 244:

PEREIRA, F. M. Esteves (1895), Visão de Tundalo, Revista Lusitana 3, 97-120.

Estudos

Bases de dados online:

Philobiblon - BITAGAP:   Texid 1067; Manid 1143;CNum 1079; Manid 1103; CNum 1090

Arlima:  http://www.arlima.net/no/80, http://www.arlima.net/no/83

 

Referências bibliográficas:

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Notas