Conto de Amaro

Número

pt.014

Título

Conto de Amaro

Vida de Sancto Amaro

Fonte latina original

Eventualmente Historia cujusdam Mauri qui concupivit videre paradisum terrestrem (lt.014)

Localização textual

Integra um manuscrito (Códice Alcobacense 266 – ALC. 462) com cerca de vinte textos diferentes intitulado Colecção Mystica de Fr. Hylario da Lourinhãa, Monge Cisterciense de Alcobaça, o qual transcreveo o seguinte no idioma Portuguez.

Língua(s)

Português antigo

Tradutor

 

Embora no início do códice se afirme que a tradução dos textos nele existentes foi obra de Frei Hilário (de que praticamente nada sabemos, à exceção de que era natural da Lourinhã e monge no Mosteiro de Alcobaça – Castro et al., 1982/83: 5), tal dado não parece fiável. De facto, embora, em termos paleográficos, o manuscrito onde se encontra o Conto de Amaro seja datado do século XV, alguns textos nele incluídos possuem uma linguagem mais antiga e há três letras diferentes, o que indicia que os copistas foram pelo menos três. Segundo Castro et al. (1982/83: 6), é possível que os três tenham trabalhado no scriptorium de Alcobaça durante o tempo em que foi abade do Mosteiro D. Estêvão de Aguiar (entre 1431 e 1446), competindo a frei Hilário a compilação dos textos e eventualmente a cópia ou tradução de alguns.

Contextualização da tradução

 

O testemunho do Códice Alcobacense é uma compilação de vidas de santos que ficou conhecida por Colecção Mystica de Fr. Hylario da Lourinhãa, Monge Cisterciense de Alcobaça, o qual transcreveo o seguinte no idioma Portuguez, designação atribuída no século XVIII, embora o manuscrito seja datado do século XV.

Relativamente ao ‘Conto de Amaro’, e pelos dados linguísticos do texto, Otto Klob considera que se trata de cópia de uma versão do século XIV, sendo que o texto original (que desconhecemos) seria em latim e dele derivaria também uma tradução espanhola (Burgos) datada de 1522, La Vida del bienaventurado Sant Amaro e de los peligros que passo hasta que llego ao Parayso terreal, que cria ser a mais antiga (hoje sabemos que existe uma edição de 1520, de Toledo). De facto, apesar de impressa no século XVI, Klob considera que esta tradução foi redigida numa linguagem que implica a existência de uma versão mais antiga, de que teria sido copiada. Esta conclusão derivou da comparação dos dois testemunhos, cujas diferenças se situam sobretudo no início e fim do texto, sendo que, de resto, são bastante similares (Dias, 1997). Contra esta opinião, Vega (1987: 18, 33) defende que é mais provável que existisse um arquétipo a partir do qual surgiram duas tradições distintas, uma que deu origem ao testemunho português e outra que deu origem aos testemunhos espanhóis.

Data

A datação do códice é polémica, dado que há divergências significativas a nível das datas para as quais os investigadores apontam. Estudos codicológicos recentes apontam para que a datação do códice se situe entre 1431 e 1446. Tal não significa, contudo, que o texto tenha sido produzido entre estes parâmetros temporais, embora haja quem defenda que o códice resultou de um projeto unitário e que, por isso, os textos deveriam ter sido produzidos nesse tempo (vide Sobral, 1993: 673).

De facto, e relativamente ao texto em questão, o testemunho mais antigo conhecido, editado por Klob, data do século XV (Candolo, 2008), mas os dados linguísticos permite perceber que se trata de cópia de uma versão do século XIV. Há semelhanças com uma versão espanhola do século XVI que permitem conjeturar que os dois testemunhos se terão baseado num mesmo original, que teria sido composto em latim eventualmente no século XIII (Souza, 2001:198).

Local

O texto terá sido traduzido/copiado provavelmente no scriptorium do Mosteiro de Alcobaça, de onde é originário o manuscrito em que se insere.

Alterações de estrutura/conteúdo

 

Texto hagiográfico que narra a viagem marítima de Santo Amaro ao Paraíso Terrestre. O texto radica em duas tradições: “a produção hagiográfica medieval e os relatos de navegação da literatura céltica” (Candolo-Câmara, 1996: 7; Souza, 2001:200-201). O texto apresenta algumas diferenças em relação ao seu congénere espanhol, nomeadamente no início e no fim, como analisam Klob (1901: 504-518) e Vega (1987: 33-36), mas não é possível aferir qual o que está mais próximo do original nem saber até que ponto houve modificações por parte dos copistas/tradutores.

O conto baseia-se no desejo de Santo Amaro de ver o “parayso terreal”. Para isto, o santo vende o que tem e parte numa viagem marítima com dezasseis companheiros. Ao longo da jornada, encontram ilhas quase desabitadas, onde vivem apenas monges ou eremitas, a par de outros lugares onde habitam seres estranhos ou povos amáveis. Escapam ainda milagrosamente a variadas calamidades naturais e chegam a enfrentar feras marinhas, das quais se livram apenas por intercessão da Virgem Maria. Durante a viagem, Santo Amaro estabelece uma relação de profunda amizade com Leomites, um frade eremita, que lhe ensina muitas coisas. Mais tarde, deixa os companheiros e chega às portas do paraíso, mas não o deixam entrar. Ali fica durante 200 anos, acabando por desistir e voltar ao mundo.

Interferências textuais

Não é possível verificar a existência ou não de interferências textuais, dado que não se conhece a fonte latina que serviu de base à tradução.

Lista de testemunhos manuscritos

 

Conhece-se um testemunho, guardado em Lisboa, na Biblioteca Nacional de Portugal, inserido no manuscrito com a referência ALC. 462, procedente do Mosteiro de Alcobaça (Códice Alcobacense 266), entre os fólios 111r e 123v. O manuscrito existe em forma de microfilme na Torre do Tombo (Torre do Tombo, Mf 185), anterior proprietário.

O texto foi reproduzido pela primeira vez na revista Romania 30 (por Otto Klob), encontrando-se online.

Lista de Edições antigas

Não existem edições impressas antigas.

Enquadramento dos testemunhos

 

O testemunho em questão data do século XV, embora seja provavelmente uma cópia de um texto do século XIV, que se encontra desaparecido.

Há também duas edições quinhentistas em espanhol: uma de Toledo, de 1520, intitulada Vida de San Amaro e outra de Burgos, de 1522, La Vida del bienaventurado Sant Amaro e de los peligros que passo hasta que llego ao Parayso terreal.

Além disto, e para lá da tradução espanhola com que o testemunho português é aparentado, há um outro texto em português: existe, no Ho Flos Sanctorum (1513), uma narração da viagem de Santo Amaro intitulada A vida do bemaventurado Santo Amaro. Este texto é de finais do século XV, tendo sido impresso em 1513, em Lisboa.

Outros dados

O manuscrito em pergaminho encadernado em que se insere este testemunho está escrito em carateres góticos de finais do século XIV/inícios do século XV numa só coluna de 30 linhas, com iniciais a cores e filigranadas. As folhas têm a dimensão de 263 × 180 mm, apresentando manchas de humidade.

Antes da Biblioteca Nacional, os seus proprietários foram o Arquivo Nacional da Torre do Tombo e o Mosteiro de Alcobaça.

Edições

 

KLOB,Otto (1901), "'A Vida de Sancto Amaro'. Texte portugais du XIVe siècle", Romania 30, 1901, 504-518.

PINTO, Maria Luísa Meireles (1961), "O conto de Amaro. Leitura crítica do texto e glossário". Lisboa: Universidade de Lisboa.

SILVA, Elsa B. Conto de Amaro – Edição de texto português medieval e introdução. In Nascimento, Aires A. (ed.) Navegação de S. Brandão nas fontes portuguesas medievais. Lisboa: Edições Colibri, 1998, 243-281.

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Estudos

Bases de dados online:

Philobiblon: Texid 1076; Manid 1143; CNum 1078

Arlima: http://www.arlima.net/ad/amaro_conto_de.html

 

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Notas