Vida de Santa Maria Egipcíaca

Número

pt.013

Título

Vida de Santa Maria Egipcíaca

Uida de Sancta Maria egipcia

Fonte latina original

Vita de S. Maria Aegyptiaca

Localização textual

Há dois testemunhos:

- o do Códice Alcobacense 266 (testemunho 1) integra um manuscrito com cerca de vinte textos diferentes intitulado Colecção Mystica de Fr. Hylario da Lourinhãa, Monge Cisterciense de Alcobaça, o qual transcreveo o seguinte no idioma Portuguez;

- o do Códice Alcobacense 270 (testemunho 2) integra um manuscrito com cerca de 12 textos de nome ‘Tratados Ascéticos’.

Língua(s)

Português medieval

Tradutor

 

Relativamente ao testemunho 1, embora no início do códice se afirme que a tradução dos textos nele existentes foi obra de Frei Hilário (de que praticamente nada sabemos, à exceção de que era natural da Lourinhã e monge no Mosteiro de Alcobaça – Castro et al., 1982/83: 5), tal dado não parece fiável. De facto, embora, em termos paleográficos, o manuscrito seja datado do século XV, alguns textos nele incluídos possuem uma linguagem mais antiga e há três letras diferentes, o que indicia que os copistas foram pelo menos três. Segundo Castro et al. (1982/83: 6), é possível que os três tenham trabalhado no scriptorium de Alcobaça durante o tempo em que foi abade do Mosteiro D. Estêvão de Aguiar (entre 1431 e 1446), competindo a frei Hilário a compilação dos textos e eventualmente a cópia ou tradução de alguns. No caso do texto em questão, como se trata de uma cópia de uma tradução anterior, o texto terá sido copiado e não traduzido para este manuscrito.

Relativamente ao testemunho 2, é possível que o copista seja Frei Elói de Ferreira, provavelmente o monge a que se refere Barbosa Machado na sua obra Bibliotheca lusitana historica, critica, e cronológica (vol. I, página 749). Dele sabemos apenas que seria natural de Ferreira do Alentejo e foi monge cisterciense no Mosteiro de Alcobaça, onde terá sido responsável pela elaboração de textos como ‘Exercícios espirituaes’ e ‘Vida de Santa Maria Egypcíaca, e outros Santos’.

Contextualização da tradução

 

O testemunho 1 pertence a uma compilação de vidas de santos que ficou conhecida por Colecção Mystica de Fr. Hylario da Lourinhãa, Monge Cisterciense de Alcobaça, o qual transcreveo o seguinte no idioma Portuguez, designação atribuída no século XVIII, embora o manuscrito seja datado do século XV.

Relativamente à ‘Vida de Santa Maria Egipcíaca’, Sobral (1993: 672-673) considera que se trata de cópia de uma versão levada a cabo entre o século XIII e XIV (dadas as características linguísticas do texto), sendo que o texto original de onde ela derivaria seria em latim.

O testemunho 2 pertence a uma compilação de vidas de santos e outros tratados que ficou conhecida por ‘Tratados Ascéticos’ e que se trata de uma cópia de fins do século XV. Possuiria 12 textos, restando apenas 11 (desapareceu o primeiro texto, ‘Doze Mandamentos’ de Atanásio, e parte do segundo, intitulado ‘Livro de Isaac’). Relativamente à ‘Vida de Santa Maria Egipcíaca’, o texto será eventualmente datado dessa época.

Data

A datação do códice onde se insere o testemunho 1 é polémica, dado que há divergências significativas a nível das datas para as quais os investigadores apontam. Estudos codicológicos recentes apontam para que a datação do códice se situe entre 1431 e 1446. Tal não significa, contudo, que o texto tenha sido produzido entre estes parâmetros temporais, embora haja quem defenda que o códice resultou de um projeto unitário e que, por isso, os textos deveriam ter sido produzidos nesse tempo (vide Sobral, 1993: 673).

De facto, e relativamente ao texto em questão, tratando-se da cópia de uma versão portuguesa produzida em finais do século XIII ou inícios do XIV, a sua data é posterior a este período, mas não está definida a sua data concreta.

Relativamente ao testemunho 2, embora haja quem aponte para o século XIV, a maioria dos investigadores situa o códice em finais do século XV. O texto em questão será também datado dessa época, dado ter sido escrito em papel, material que só nesse período passou a ser utilizado em Alcobaça (Sobral, 1993: 673; Cambraia, 2007: 178-179).

Local

Os dois testemunhos terão sido traduzidos/copiados scriptorium do Mosteiro de Alcobaça, de onde são originários os manuscritos em que se inserem.

Alterações de estrutura/conteúdo

 

Texto hagiográfico que narra o encontro entre o monge Zózimas e uma mulher devassa, Maria Egipcíaca. O monge foi desde a juventude um modelo de santidade e buscava a perfeição. Ao procurar atingi-la, encontra uma mulher eremita que lhe conta a sua história de devassidão, a sua conversão e a sua vida no deserto.

Os dois testemunhos em Português, apesar de muito semelhantes, apresentam várias diferenças e inovações por parte dos tradutores/copistas. Os estudos realizados permitem concluir que existiria uma tradução portuguesa do texto latino a partir da qual surgiram duas cópias – o testemunho 1 e o 2. No entanto, enquanto o testemunho 1 se basearia apenas nessa tradução, o testemunho 2 terá usado essa tradução e também a versão latina existente no códice alcobacense 454. É assim um texto com algumas diferenças em relação ao testemunho 1: é mais fiel ao texto latino e apresenta algumas inovações, ligadas, por exemplo, ao discurso oratório (Sobral, 1993: 673).

Interferências textuais

O testemunho 1 será cópia de uma tradução portuguesa desaparecida. O testemunho 2 é baseado nessa mesma tradução, mas apresenta a interferência direta da versão latina do códice alcobacense 454, que o copista/tradutor também teve em consideração (Sobral, 1993: 673).

Lista de testemunhos manuscritos

 

Conhecem-se dois testemunhos, guardados em Lisboa, na Biblioteca Nacional de Portugal.

Testemunho 1: está inserido no manuscrito com a referência ALC. 462, procedente do Mosteiro de Alcobaça (Códice Alcobacense 266), entre os fólios 1r e 42r. O manuscrito existe em forma de microfilme na Torre do Tombo (Torre do Tombo, mf 185), anterior proprietário.

Testemunho 2: encontra-se também na Biblioteca Nacional, inserido no manuscrito com a referência ALC. 461, procedente do Mosteiro de Alcobaça (Códice Alcobacense 270), entre os fólios 116r e 133v. O manuscrito existe em forma de microfilme na Torre do Tombo (Torre do Tombo, mf. 366 – cota antiga: Alc. 270; nova cota: Manuscritos da Livraria, nº 771, Casa Forte), anterior proprietário.

Lista de Edições antigas

Há uma versão reduzida da narrativa na tradução portuguesa Flos Sanctorum de 1513, existente na Biblioteca Nacional de Lisboa.

Há também duas paráfrases em verso:

- uma de Sá de Miranda, publicada por Teófilo Braga: Braga, Teófilo (1913), A Egipciaca Santa Maria. Porto: Livraria Chardron.

- outra de Leonel da Costa, em redondilhas: Conversão miraculosa da felice egypciaca penitente Santa Maria sua vida, e morte, em Lisboa, por Giraldo da Vinha, em 1627 (vide Machado (1741), vol. III, página 9).

Enquadramento dos testemunhos

 

É provável que o arquétipo de que descendem os testemunhos seja uma cópia de uma tradução em Latim do século IX feita, a pedido de Carlos, o Calvo, por Paulo, diácono de Nápoles. (Nunes, 1917: 183; Sobral, 1993: 672). Este arquétipo, entretanto desaparecido, terá sido feito antes ou durante o século XIII e a partir dele fizeram-se dois textos:

- a versão latina que encontramos no códice alcobacense 454 existente na Biblioteca Nacional e que introduz algumas modificações em relação ao seu modelo, dado que é mais reduzia que o seu original;

- uma tradução em português entre o século XIII e XIV (dadas as particularidades linguísticas do texto) que apresenta algumas inovações e efeitos estilísticos que não constariam do seu modelo original. Esta tradução, desaparecida, deu origem a duas cópias:

·     O testemunho 1, cópia existente no Códice Alcobacense 266, hoje na Biblioteca Nacional no manuscrito com a referência ALC. 462.

·     O testemunho 2, cópia da segunda metade do século XV, existente no Códice Alcobacense 270, guardado na Biblioteca Nacional no manuscrito com a referência ALC. 461.Neste texto, o copista procura corrigir a tradução que usa como modelo, partindo da versão latina do códice alcobacense 454. Daqui resulta novo texto, muito parecido com a cópia do Códice Alcobacense 266, mas mais fiel ao texto latino e com algumas inovações.

Outros dados

Testemunho 1: existente no Códice Alcobacense 266, hoje na Biblioteca Nacional no manuscrito com a referência ALC. 462, pertence a um manuscrito em pergaminho encadernado e escrito em carateres góticos de finais do século XIV/inícios do século XV numa só coluna de 30 linhas, com iniciais a cores e filigranadas. As folhas têm a dimensão de 263 × 180 mm, apresentando manchas de humidade. Antes da Biblioteca Nacional, os seus proprietários foram o Arquivo Nacional da Torre do Tombo e o Mosteiro de Alcobaça.

Testemunho 2: existente no Códice Alcobacense 270, hoje na Biblioteca Nacional no manuscrito com o número ALC. 461, pertence a um manuscrito composto por 151 fólios, dos quais conhecemos 148, distribuídos por 15 cadernos. É feito em pergaminho e papel (58 fólios em pergaminho e 90 em papel) com as dimensões de 208 x 135 mm e sem ornamentações. Escrito em letra gótica cursiva a preto, com títulos e capitulares a vermelho e encadernado em carneira moderna, é considerado uma cópia de finais do século XV. Antes da Biblioteca Nacional, os seus proprietários foram o Arquivo Nacional da Torre do Tombo e o Mosteiro de Alcobaça. Terá sido escrito provavelmente a duas mãos (Cambraia, 2001: 8-9). Em Cambraia 2007 encontramos uma descrição completa deste códice.

Edições

 

Edições parciais:

Códice alcobacense 266 (testemunho 1):

Cornu, Jules (1882), "Anciens textes portugais (Vie de sainte Euphrosyne, Vie de sainte Marie Egyptienne, fragments pieux)", Romania 11, 357-365.

Dias, Epiphanio (1903-05), "Notas críticas a textos portugueses. I. 'Vida de Santa Euphrosina', 'Vida de Santa Maria Egypcia'", Revista Lusitana 8, 179-183.

Castro, Ivo et alii (1984-85), "Vidas de santos de um manuscrito alcobacense (II): Vida de Eufrosina, Vida de Santa Maria Egipcíaca", Revista Lusitana. Nova Série 5, 56-71.

 

Códice alcobacense 270 (testemunho 2):

Nunes, J. J. (1917), "Textos antigos portugueses VII. [Vida de Santa Maria Egipcia]", Revista Lusitana 20, 184-203.

 

Outras edições em:

Corpus Informatizado do Português Medieval: Vidas de Santos de um Manuscrito Alcobacense - Séc. XIII/XIV, VS7

Olsen, B. Munk (1984), "La 'Vida de Santa Pelágia': une traduction portugaise médiévale et son modèle latin". In Pélagie la pénitente: métamorphoses d'une legende. Paris: Études Augustiniennes, 2, 243-277.

Sobral, Cristina Maria Matias (1991), Santa Maria Egipcíaca em Alcobaça: edição crítica das versões medievais portuguesas da lenda de Maria Egipcíaca. Tese de mestrado. Lisboa: Colibri.

Estudos

Bases de dados online:

Philobiblon – BITAGAP:

Testemunho 1: Texid 1087; Manid 1143; CNum 1071

Testemunho 2: Texid 1087; Manid 1141; CNum 1111

 
Referências bibliográficas:

CAMBRAIA, César Nardelli (2005), Introdução à Crítica Textual. São Paulo: Martins Fontes.

CAMBRAIA, César Nardelli (2007), Tradução em língua portuguesa do “Livro de Isaac”. Caligrama 12, 171-203.

CAMBRAIA, César Nardelli (2001), “Cinco breves tratados religiosos alcobacenses: edição semidiplomática (cód. alc. 461)”. Caligrama 6, 7-28.

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Notas

Há uma tradução do texto que aparentemente deriva não do texto latino, mas de uma cópia em vernáculo. Trata-se de um texto que integra um exemplar português da obra Flos Sanctorum que se encontra na Biblioteca Nacional de Portugal (Ho flos sanctõ[rum] em lingoaje[m] p[or]tugue[s]), com a cota RES. 157 A. Esta obra deriva do texto castelhano da Legenda Aurea de Jacobus de Voragine e regista a vida de Santa Maria Egipcíaca entre os fólios 56v e 57v. Trata-se de uma edição de 1513 feita em Lisboa que compila mais de duas centenas de textos. Esta obra é composta por perto de trezentos fólios (alguns estão desaparecidos e outros estão degradados) a duas colunas em papel e é encadernada em pergaminho. As folhas têm a dimensão de 263 x 200 mm e está escrita em gótica, possuindo iluminuras. Anteriormente, a obra pertenceu a Dom João de Melo Manuel da Câmara Medeiros, Conde da Silvã e Francisco de Melo Manuel da Câmara (Cabrinha).