Vida de Santa Pelágia

Número

pt.012

Título

Vida de Santa Pelágia

Vida de Sancta Pellagya

Vida de Santa Paia

Fonte latina original

Vita Pelagiae

Vita Sanctae Pelagiae (lt.012)

Localização textual

Há dois testemunhos que traduzem a versão latina:

- o do Códice Alcobacense 266 (testemunho 1) integra um manuscrito com cerca de vinte textos diferentes intitulado Colecção Mystica de Fr. Hylario da Lourinhãa, Monge Cisterciense de Alcobaça, o qual transcreveo o seguinte no idioma Portuguez;

- o do Códice Alcobacense 270 (testemunho 2) integra um manuscrito com cerca de 12 textos de nome ‘Tratados Ascéticos’.

Língua(s)

Português medieval

Tradutor

 

Relativamente ao testemunho 1, embora no início do códice se afirme que a tradução dos textos nele existentes foi obra de Frei Hilário (de que praticamente nada sabemos, à exceção de que era natural da Lourinhã e monge no Mosteiro de Alcobaça – Castro et al., 1982/83: 5), tal dado não parece fiável. De facto, embora, em termos paleográficos, o manuscrito seja datado do século XV, alguns textos nele incluídos possuem uma linguagem mais antiga e há três letras diferentes, o que indicia que os copistas foram pelo menos três. Segundo Castro et al. (1982/83: 6), é possível que os três tenham trabalhado no scriptorium de Alcobaça durante o tempo em que foi abade do Mosteiro D. Estêvão de Aguiar (entre 1431 e 1446), competindo a frei Hilário a compilação dos textos e eventualmente a cópia ou tradução de alguns.

Relativamente ao testemunho 2, é possível que o copista seja Frei Elói de Ferreira, provavelmente o monge a que se refere Barbosa Machado na sua obra Bibliotheca lusitana historica, critica, e cronológica (vol. I, página 749). Dele sabemos apenas que seria natural de Ferreira do Alentejo e foi monge cisterciense no Mosteiro de Alcobaça, onde terá sido responsável pela elaboração de textos como ‘Exercícios espirituaes’ e ‘Vida de Santa Maria Egypcíaca, e outros Santos’.

Contextualização da tradução

 

O testemunho 1 pertence a uma compilação de vidas de santos que ficou conhecida por Colecção Mystica de Fr. Hylario da Lourinhãa, Monge Cisterciense de Alcobaça, o qual transcreveo o seguinte no idioma Portuguez, designação atribuída no século XVIII, embora o manuscrito seja datado do século XV.

O testemunho 2 pertence a uma compilação de vidas de santos e outros tratados que ficou conhecida por ‘Tratados Ascéticos’ e que se trata de uma cópia de fins do século XV. Possuiria 12 textos, restando apenas 11 (desapareceu o primeiro texto, ‘Doze Mandamentos’ de Atanásio, e parte do segundo, intitulado ‘Livro de Isaac’).

Data

A datação do códice onde se insere o testemunho 1 é polémica, dado que há divergências significativas a nível das datas para as quais os investigadores apontam. Estudos codicológicos recentes apontam para que a datação do códice se situe entre 1431 e 1446. Tal não significa, contudo, que o texto tenha sido produzido entre estes parâmetros temporais, embora haja quem defenda que o códice resultou de um projeto unitário e que, por isso, os textos deveriam ter sido produzidos nesse tempo (vide Sobral, 1993: 673).

Relativamente ao testemunho 2, embora haja quem aponte para o século XIV, a maioria dos investigadores situa o códice em finais do século XV.

Local

Os testemunhos terão sido traduzidos/copiados scriptorium do Mosteiro de Alcobaça, de onde são originários os manuscritos em que se inserem.

Alterações de estrutura/conteúdo

 

Texto hagiográfico que narra a mudança de vida de Pelágia, mulher pública de Antioquia que, ao ouvir uma pregação do bispo Nono, decide renunciar à vida que leva. Depois de batizada e de renunciar às tentações de Satanás, desaparece. Mais tarde, o narrador vai em peregrinação à Terra Santa e encontra-se com um monge eremita, considerado santo, de nome Pelágio. Mais tarde, regressa e encontra-o morto. Só nessa altura, durante a preparação das exéquias, percebe que esteve perante Pelágia, que viveu disfarçada de homem durante todo esse tempo.

Nos dois testemunhos em Português há um erro que modifica o texto, em relação ao latino: pelo contexto, Nono, que é apresentado como bispo de Antioquia, não o pode ser (ver item sobre as relações entre testemunhos).

Interferências textuais

O testemunho 1 será cópia de uma tradução portuguesa desaparecida.

O testemunho 2 é baseado nessa mesma tradução, mas apresenta a interferência direta da versão latina do códice alcobacense 283/454, que o copista/tradutor também teve em consideração (Duarte, 1993: 674).

Lista de testemunhos manuscritos

 

Conhecem-se dois testemunhos, guardados em Lisboa, na Biblioteca Nacional de Portugal:

Testemunho 1: está inserido no manuscrito com a referência ALC. 462, procedente do Mosteiro de Alcobaça (Códice Alcobacense 266), entre os fólios 74v e 82v. O manuscrito existe em forma de microfilme na Torre do Tombo (Torre do Tombo, mf 185), anterior proprietário.

Testemunho 2: encontra-se também na Biblioteca Nacional, inserido no manuscrito com a referência ALC. 461, procedente do Mosteiro de Alcobaça (Códice Alcobacense 270), entre os fólios 133v e 144r. O manuscrito existe em forma de microfilme na Torre do Tombo (Torre do Tombo, mf. 366: cota antiga: Alc. 270; nova cota: Manuscritos da Livraria, nº 771, Casa Forte), anterior proprietário.

Lista de Edições antigas

Segundo Duarte (1993: 674) há versões posteriores da narrativa em português, originadas nas Vitae Patrum e no Historial de Santo Antonino, destacando-se as versões do Flos Sanctorum (ver nota) e uma outra versão na obra Historial das vidas e feitos heroicos, e obras dos santos, de Frei Diogo do Rosário (1567).

Enquadramento dos testemunhos

 

Os dois testemunhos em Português parecem derivar de um modelo comum, dado que contêm um erro comum: Nono é apresentado como bispo de Antioquia o que, pelo contexto, não seria possível, dado que na mesma narrativa se diz que ele foi convocado para um encontro com o bispo de Antioquia. Esta situação, aliada ao facto de existirem outras versões que apontam Nono como bispo de Heliópolis, permite pensar que o tradutor terá cometido um erro e que os dois textos portugueses são assim cópia da versão que continha o erro (Duarte, 1993: 675). Segundo Nunes (1917: 183) e Sobral (1993: 672), é provável que o arquétipo de que descendem os testemunhos seja uma cópia de uma tradução em Latim do século IX feita, a pedido de Carlos, o Calvo, por Paulo, diácono de Nápoles. Deste arquétipo, entretanto desaparecido, surgiu uma tradução em português entre o século XIII e XIV que deu origem a duas cópias:

·     O testemunho 1, cópia existente no Códice Alcobacense 266, hoje na Biblioteca Nacional no manuscrito com a referência ALC. 462.

·     O testemunho 2, cópia da segunda metade do século XV, existente no Códice Alcobacense 270, guardado na Biblioteca Nacional no manuscrito com a referência ALC. 461. Na elaboração deste texto, o copista terá consultado a versão latina reduzida do códice alcobacense 283/454 (Duarte, 1993: 674).

Outros dados

Testemunho 1: existente no Códice Alcobacense 266, hoje na Biblioteca Nacional no manuscrito com a referência ALC. 462, pertence a um manuscrito em pergaminho encadernado e escrito em carateres góticos de finais do século XIV/inícios do século XV numa só coluna de 30 linhas, com iniciais a cores e filigranadas. As folhas têm a dimensão de 263 × 180 mm, apresentando manchas de humidade. Antes da Biblioteca Nacional, os seus proprietários foram o Arquivo Nacional da Torre do Tombo e o Mosteiro de Alcobaça.

Testemunho 2: existente no Códice Alcobacense 270, hoje na Biblioteca Nacional no manuscrito com a referência ALC. 461, pertence a um manuscrito composto por 151 fólios, dos quais conhecemos 148, distribuídos por 15 cadernos. É feito em pergaminho e papel (58 fólios em pergaminho e 90 em papel) com as dimensões de 208 x 135 mm e sem ornamentações. Escrito em letra gótica cursiva a preto, com títulos e capitulares a vermelho e encadernado em carneira moderna, é considerado uma cópia de finais do século XV. Antes da Biblioteca Nacional, os seus proprietários foram o Arquivo Nacional da Torre do Tombo e o Mosteiro de Alcobaça. Terá sido escrito provavelmente a duas mãos (Cambraia, 2001: 8-9). Em Cambraia 2007 encontramos uma descrição completa deste códice.

Edições

 

CASTRO, Ivo et alii (1982-83), "Vidas de Santos de um manuscrito alcobacense: Vida de Tarsis, Vida de uma Monja, Vida de Santa Pelágia, Morte de São Jerónimo, Visão de Túndalo", Revista Lusitana. Nova Série 4, 20-29

NUNES, J. J. (1907), "Textos antigos portugueses III. [Vida de Santa Pelagia]", Revista Lusitana 10, 179-190.

OLSEN, B. Munk (1984), "La 'Vida de Santa Pelágia': une traduction portugaise médiévale et son modèle latin". In Pélagie la pénitente: métamorphoses d'une legende. Paris: Études Augustiniennes, 2, 243-277.

Corpus Informatizado do Português Medieval: Vidas de Santos de um Manuscrito Alcobacense - Séc. XIII/XIV, VS3

Estudos

Bases de dados online:

Philobiblon – BITAGAP:

Testemunho 1: Texid 1085; Manid 1143; CNum 1074

Testemunho 2: Texid 1085; Manid 1141; CNum 1104

Testemunho 3: Texid 1085; Manid 1153; CNum 2088

 

Referências bibliográficas:

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Notas

Há outras duas traduções do texto que derivam não do texto latino, mas de uma cópia em vernáculo. São assim textos que integram dois exemplares portugueses da obra Flos Sanctorum:

- um, existente na Biblioteca Nacional de Portugal (Ho flos sanctõ[rum] em lingoaje[m] p[or]tugue[s]), com a cota RES. 157 A, deriva do texto castelhano da Legenda Aurea de Jacobus de Voragine e regista a vida de Santa Pelágia entre os fólios 148v e 149r. Trata-se de uma edição de 1513 feita em Lisboa que compila mais de duas centenas de textos. Esta obra é composta por perto de trezentos fólios (alguns estão desaparecidos e outros estão degradados) a duas colunas em papel e é encadernada em pergaminho. As folhas têm a dimensão de 263 x 200 mm e está escrita em gótica, possuindo iluminuras. Anteriormente, a obra pertenceu a Dom João de Melo Manuel da Câmara Medeiros, Conde da Silvã e Francisco de Melo Manuel da Câmara (Cabrinha);

- outro, existente na Biblioteca Central da Universidade de Brasília (Divisão de Coleções Especiais: 182 - Olim; Cofre [sem cota]), que possui cerca de três dezenas de textos, englobando vidas de santos e pequenos tratados morais. Trata-se de uma cópia provavelmente de uma versão em vernáculo que não se conhece (Silva et al., 2009: 199) e é de fins do século XIV ou inícios do seculo XV e regista a vida de santa Pelágia entre os fólios 17v, 14r-v e 1r-3r. Esta compilação é composta por 81 fólios em pergaminho com duas colunas de 36 linhas, com folhas com dimensões de 330 x 223 mm e está escrita em gótica minúscula. O manuscrito foi adquirido em 1964, tendo pertencido até então a Serafim da Silva Neto e, anteriormente, a Jorge de Faria. Existe na Biblioteca Nacional de Lisboa cópia moderna deste manuscrito, relativa aos fólios 62r a 82v do original (Mss 211, n. 1).