Vida de Santa Eufrosina

Número

pt.011

Título

Uida de euffrossina ffilha de panuncio

Vida de Santa Eufrosina

Vida de Eufrosina de Alexandria

Fonte latina original

Vita Sanctae Euphrosinae (lt.011)

Localização textual

Integra um manuscrito com cerca de vinte textos diferentes intitulado Colecção Mystica de Fr. Hylario da Lourinhãa, Monge Cisterciense de Alcobaça, o qual transcreveo o seguinte no idioma Portuguez.

Língua(s)

Português medieval

Tradutor

 

Embora no início do códice se afirme que a tradução dos textos nele existentes foi obra de Frei Hilário (de que praticamente nada sabemos, à exceção de que era natural da Lourinhã e monge no Mosteiro de Alcobaça – Castro et alii, 1982/83: 5), tal dado não parece fiável. De facto, embora, em termos paleográficos, o manuscrito seja datado do século XV, alguns textos nele incluídos possuem uma linguagem mais antiga e há três letras diferentes, o que indicia que os copistas foram pelo menos três. Segundo Castro et alii (1982/83: 6), é possível que os três tenham trabalhado no scriptorium de Alcobaça durante o tempo em que foi abade do Mosteiro D. Estêvão de Aguiar (entre 1431 e 1446), competindo a frei Hilário a compilação dos textos e eventualmente a cópia ou tradução de alguns.

Contextualização da tradução

 

O testemunho do Códice Alcobacense é uma compilação de vidas de santos que ficou conhecida por Colecção Mystica de Fr. Hylario da Lourinhãa, Monge Cisterciense de Alcobaça, o qual transcreveo o seguinte no idioma Portuguez, designação atribuída no século XVIII, embora o manuscrito seja datado do século XV.

Neste códice encontra-se, entre outras narrativas, a vida de Santa Eufrosina. O texto terá sido traduzido a partir do latim entre os séculos XIV e XV, não estando definido se deriva de algum dos manuscritos latinos existentes em Portugal.

Para além de várias versões em Latim, há traduções em outras línguas (francês, italiano, catalão ou alemão), como documenta Hill (1919: 163-168).

Data

A datação do códice é polémica, dado que há divergências significativas a nível das datas para as quais os investigadores apontam. Estudos codicológicos recentes apontam para que a datação do códice se situe entre 1431 e 1446. Tal não significa, contudo, que o texto tenha sido produzido entre estes parâmetros temporais, embora haja quem defenda que o códice resultou de um projeto unitário e que, por isso, os textos deveriam ter sido produzidos nesse tempo (vide Sobral, 1993: 673).

De facto, e relativamente ao texto em questão, deve ter sido produzido entre os séculos XIV e XV.

Local

O texto terá sido traduzido/copiado provavelmente no scriptorium do Mosteiro de Alcobaça, de onde é originário o manuscrito em que se insere.

Alterações de estrutura/conteúdo

 

Texto hagiográfico que narra a opção monástica de Santa Eufrosina e a sua vida no Mosteiro, disfarçada de homem, sem que ninguém, incluindo seu pai, se aperceba. Assim, o conto baseia-se no desejo de Eufrosina de seguir uma vida monástica, apesar de prometida em casamento. Aproveitando a ausência paterna, Eufrosina foge e refugia-se, disfarçada de homem, num convento. Seu pai, inconsolável, procura conforto nesse mesmo convento e acaba por ter como confidente a própria filha que só 38 anos depois, às portas da morte, lhe revela a sua verdadeira identidade.

O disfarce de homem, por parte de mulheres que pretendem seguir uma vida monástica, revelou-se recorrente nas hagiografias medievais, pelo que este texto apresenta similitudes com narrativas de outras santas, como Pelágia de Antioquia ou Teodora de Alexandria.

Interferências textuais

Segundo Delehaye (1906: 230; Machado, 1993: 672), há muitas similitudes entre este texto e a Vida de Santa Pelágia, nomeadamente a nível dos topoi que ambas as narrativas partilham: esterilidade materna, nascimento sentido como uma recompensa pela devoção parental, sabedoria em tenra idade, formosura, recusa do matrimónio. Tal não significa, contudo, que o texto seja uma cópia baseada em outra hagiografia.

Lista de testemunhos manuscritos

Conhece-se um testemunho, guardado em Lisboa, na Biblioteca Nacional de Portugal, inserido no manuscrito com a referência ALC. 462, procedente do Mosteiro de Alcobaça (Códice Alcobacense 266), entre os fólios 42v e 50v. O manuscrito existe em forma de microfilme na Torre do Tombo (Torre do Tombo, Mf 185), anterior proprietário.

Lista de Edições antigas

Em Português, não há edições antigas desde texto.

Enquadramento dos testemunhos

O testemunho em questão data do século XIV ou XV e é a única tradução em língua portuguesa conhecida.

Outros dados

O manuscrito em pergaminho encadernado em que se insere este testemunho está escrito em carateres góticos de finais do século XIV/inícios do século XV numa só coluna de 30 linhas, com iniciais a cores e filigranadas. As folhas têm a dimensão de 263 × 180 mm, apresentando manchas de humidade.

Antes da Biblioteca Nacional, os seus proprietários foram o Arquivo Nacional da Torre do Tombo e o Mosteiro de Alcobaça.

Edições

 


CASTRO, Ivo et alii (1984-85), "Vidas de santos de um manuscrito alcobacense (II): Vida de Eufrosina, Vida de Santa Maria Egipcíaca", Revista Lusitana. Nova Série 5, 43-71.

CORNU, Jules (1882), "Anciens textes portugais (Vie de sainte Euphrosyne, Vie de sainte Marie Egyptienne, fragments pieux)", Romania 11, 357-365.

DIAS, Epiphanio (1903-05), "Notas críticas a textos portugueses. I. 'Vida de Santa Euphrosina', 'Vida de Santa Maria Egypcia'", Revista Lusitana 8, 179-183.

 

Edição informatizada:

Corpus Informatizado do Português Medieval: Vidas de Santos de um Manuscrito Alcobacense - Séc. XIII/XIV, VS6

Estudos

Bases de dados online:

Philobiblon – BITAGAP:

Texid 1086; Manid 1143; CNum 1070

 

Referências bibliográficas:

CEPEDA, Isabel Vilares (1995), Bibliografia da Prosa Medieval em Língua Portuguesa. Lisboa: Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, 220.

COSTA, Sara Figueiredo (2003), "A construção dos tempos do ‘passado' em alguns textos do século XV - Sete Vidas de Santos do Códice Alcobacense 266", Actas do XVIII Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística, 267-273.

DELEHAYE, H. (1906), Les légendes hagiographiques. Bruxelles: Bureaux de la Société des Bollandistes.

HILL, Raymond T. (1919) La Vie de Sainte Euphrosine . Romanic Review 10.2, 159-169.

HILL, Raymond T. (1919) La Vie de Sainte Euphrosine. Romanic Review 10.3, 191-232.

HILL, Raymond T. La Vie de Sainte Euphrosine (concluded). Romanic Review 12.1, 44-49.

MACHADO, A. M. (1993), "Vida de Santa Eufrosina". In Lanciani, Giulia e Tavani, Giuseppe (dir.), Dicionário da Literatura Medieval Galega e Portuguesa. Lisboa: Caminho, 671-672.

RADERMACHER, C. J. E. (1889), Lautlehre zweier alportugiesischen Heiligenleber (Euphrosyna und Maria aegyptiaca). Bonn: Universitäts-Buchdruckerei von Carl Georgi.

SOBRAL, C. (2005), "O Modelo discursivo hagiográfico", Modelo. Actas do V Colóquio da Secção Portuguesa da Associação Hispânica de Literatura Medieval 103.

SOBRAL, Cristina M. M. (1993), Vida de Santa Maria Egipcíaca. In LANCIANI, Giulia e TAVANI, Giuseppe (dir.), Dicionário da Literatura Medieval Galega e Portuguesa. Lisboa: Caminho, 672-674.


Notas