Lenda de Barlaão e Josafate

Número

pt.010

Título

Lenda de Barlaão e Josafate

A Lenda dos Santos Barlaão e Josafate

Livro de Barlaão e Josafate

Barlaão e Josafat

História de Barlaão e Josafá

Vida de S. Barlaão e S. Josafá

Fonte latina original

Liber de gestis Barlaam et Iosaphat seruorum Dei (lt.010)

Localização textual

Integra um manuscrito com cerca de vinte textos diferentes intitulado Colecção Mystica de Fr. Hylario da Lourinhãa, Monge Cisterciense de Alcobaça, o qual transcreveo o seguinte no idioma Portuguez (Códice Alcobacense 266, ALC. 462).

Língua(s)

‘Português medieval’

Tradutor

 

Embora no início do códice se afirme que a tradução dos textos nele existentes foi obra de Frei Hilário (de que praticamente nada sabemos, à exceção de que era natural da Lourinhã e monge no Mosteiro de Alcobaça – Castro et alii, 1982/83: 5), tal dado não parece fiável. De facto, embora, em termos paleográficos, o manuscrito onde se encontra a história de Barlaão e Josafate seja datado do século XV, alguns textos nele incluídos possuem uma linguagem mais antiga e há três letras diferentes, o que indicia que os copistas foram pelo menos três. Segundo Castro et alii (1982/83: 6), é possível que os três tenham trabalhado no scriptorium de Alcobaça durante o tempo em que foi abade do Mosteiro D. Estêvão de Aguiar (entre 1431 e 1446), competindo a frei Hilário a compilação dos textos e eventualmente a cópia ou tradução de alguns.

Contextualização da tradução

 

O testemunho do Códice Alcobacense é uma compilação de vidas de santos que ficou conhecida por Colecção Mystica de Fr. Hylario da Lourinhãa, Monge Cisterciense de Alcobaça, o qual transcreveo o seguinte no idioma Portuguez, designação atribuída no século XVIII, embora o manuscrito seja datado do século XV.

Relativamente à história de Barlaão e Josafate, a versão portuguesa não é uma tradução integral do texto latino (há omissões). Assim, e segundo Soares (1993: 665), não há certezas sobre se esta tradução foi feita com base no texto latino existente em Alcobaça, dadas as diferenças flagrantes de conteúdo.

Data

A datação do códice é polémica, dado que há divergências significativas a nível das datas para as quais os investigadores apontam. Estudos codicológicos recentes apontam para que a datação do códice se situe entre 1431 e 1446. Tal não significa, contudo, que o texto tenha sido produzido entre estes parâmetros temporais, embora haja quem defenda que o códice resultou de um projeto unitário e que, por isso, os textos deveriam ter sido produzidos nesse tempo (Sobral, 1993: 673).

De facto, e relativamente ao texto em questão, há opiniões díspares sobre a datação do texto, embora seja provável que se situe entre os finais do século XIV e princípios do século XV (Vilches Fernández, 2010: 931; Abraham,1938: 7; Pupo-Walker, 1987: IX).

Local

O texto terá sido traduzido/copiado provavelmente no scriptorium do Mosteiro de Alcobaça, de onde é originário o manuscrito em que se insere.

Alterações de estrutura/conteúdo

 

Texto hagiográfico que narra a história de Josafate. O conto baseia-se na história do príncipe Josafate que, ao conseguir libertar-se da vida no palácio onde o pai (o rei Avenir) o encerrara para o proteger de tudo o que o podia perturbar, parte a conhecer mundo. Pelo caminho, contudo, confronta-se com a existência da doença, da velhice e da morte e é ajudado, nestas suas descobertas, por Barlaão, um monge eremita enviado por Jesus Cristo, que lhe ensina os pontos fundamentais da doutrina cristã, convertendo-o ao Cristianismo.

A versão portuguesa não é uma tradução integral do texto latino, já que há várias omissões, tendo o tradutor optado por relatar apenas a história de Josafate.

Interferências textuais

Não se conhecem interferências textuais.

Lista de testemunhos manuscritos

 

Conhece-se um testemunho, guardado em Lisboa, na Biblioteca Nacional de Portugal, inserido no manuscrito com a referência ALC. 462, procedente do Mosteiro de Alcobaça (Códice Alcobacense 266), entre os fólios 1r e 42r. O manuscrito existe em forma de microfilme na Torre do Tombo (Torre do Tombo, Mf 185), anterior proprietário.

Lista de Edições antigas

Há ainda duas edições antigas em Portugal: uma, impressa em 1513, diz respeito à tradução portuguesa de Flos sanctorum, versão simplificada da Legenda Aurea de Jacopo de Voragine (ver Notas); outra, impressa em 1567 por António Maris em Braga, está ligada a Frei Diogo do Rosário – eventual autor ou copista da tradução – que, a mando de Frei Bartolomeu dos Mártires, apresentou uma tradução de um texto do século XII atribuído a São João Damasceno (História das Vidas e Feitos Heróicos e Obras Insignes dos Santos). Este texto, de 1550, traduz fielmente os manuscritos latinos de Alcobaça e Santa Cruz (Vilches Fernández, 2010: 930; Soares, 1993: 665).

Enquadramento dos testemunhos

 

A versão portuguesa manuscrita da Lenda de Barlãao e Josafate não é uma tradução integral do texto latino alcobacense, como nota Pupo-Walker (1987: VI), referindo que o tradutor se limitou à vida de Josafate, excluindo apólogos e histórias intercaladas que existem no texto latino.

Assim, e segundo Soares (1993: 665), não há certezas sobre se esta tradução foi feita com base no texto latino existente em Alcobaça, dadas as diferenças flagrantes de conteúdo. Há, por isso, quem pense que o testemunho é uma cópia e não uma tradução do latim e, embora não esteja definido concretamente qual o texto original a partir do qual se fez a cópia, se levante a suposição de que possa proceder da Vulgata latina (Vilches Fernández, 2010: 931).

Segundo Nunes (1903-1905: 246), alguns termos utilizados são típicos do sul do reino, sendo que a letra do testemunho é idêntica à que surge na Visão de Túndalo (no mesmo códice). Isto permite pensar que o autor do texto seria do sul do reino.

Outros dados

O manuscrito em pergaminho encadernado em que se insere este testemunho está escrito em carateres góticos de finais do século XIV/inícios do século XV numa só coluna de 30 linhas, com Iniciais a cores e filigranadas. As folhas têm a dimensão de 263 × 180 mm, apresentando manchas de humidade.

Antes da Biblioteca Nacional, os seus proprietários foram o Arquivo Nacional da Torre do Tombo e o Mosteiro de Alcobaça.

Edições

 

ABRAHAM, R. D. (1937), "A Portuguese Version of the Life of Barlaam and Josaphat. Paelographical Edition and Linguistic Study". Philadelphia: University of Pennsylvania.

DIAS, A. Epifânio da Silva (1903) “A lenda dos santos Barlaão e Josaphate. I. Texto crítico por G. de Vasconcellos Abreu. Lisboa 1898”, Zeitschrift für romanische Philologie 27, 465-469.

LACERDA, M. C. (1963), “Vida do honrado infante Josaphate filho del rey Avenir”. Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar.

PUPO-WALKER, Constantino Enrique (1987), "A Critical Edition of the Old Portuguese Version of Barlaam and Josaphat". Chapel Hill: University of North Carolina.

VASCONCELLOS-ABREU, G. e VIANA, A. R. G. (1898), "Texto crítico da Lenda dos Santos Barlaão e Josafate. Tirado do Códice do Mosteiro de Alcobaça existente com o n.o 266 na Tôrre do Tombo", Memorias da Academia Real das Sciencias de Lisboa. Classe de Sciencias Morais, Politicas e Belas-Letras. Lisboa: Academia das Ciências.


Estudos

Bases de dados online:

Philobiblon – BITAGAP:

Texid 1056; Manid 1143; CNum 1063


Referências bibliográficas:

BORGES, P. A. E. (2007), "A vida do honrado infante Josaphate ou de como a cristianização do Buda semeia a vacuidade na cultura ocidental e portuguesa", Revista Lusófona de Ciência das Religiões 11: 67-82.

CASTRO, Ivo et alii (1982-83), "Vidas de Santos de um manuscrito alcobacense: Vida de Tarsis, Vida de uma Monja, Vida de Santa Pelágia, Morte de São Jerónimo, Visão de Túndalo", Revista Lusitana. Nova Série 4: 5-13

CEPEDA, I. V. (1995), Bibliografia da Prosa Medieval em Língua Portuguesa. Lisboa: Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, 46-49.

CORDONI, Mag. Constanza (2010), Barlaam und Josaphat in der europäischen Literatur des Mittelalters. Diss. Wien: Universität Wien.

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MOLDENHAUER, G. (1929), "Die Legende von Barlaam und Josaphat auf der iberischen Halbinsel", Romanistische Arbeiten 13, 141-155.

NUNES, J. J. (1903-1905), Textos antiguos portugueses. I: A visão de Tundalo ou o cavalleiro Tungullo, Revista Lusitana 8, 239-262.

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PEREIRA, F. M. E. (1916), "A História de Barlaam e Josaphat em Portugal", Boletim da Segunda Classe 10, 346-383.

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SOBRAL, Cristina M. M. (1993), Vida de Santa Maria Egipcíaca. In LANCIANI, Giulia e TAVANI, Giuseppe (dir.), Dicionário da Literatura Medieval Galega e Portuguesa. Lisboa: Caminho, 672-674.

VILCHES FERNÁNDEZ, Rocío (2010), "Texto y traducción: la poética del traductor a propósito de las versiones castellanas y portuguesas de Barlaam y Josafat", in Fernandes, Ângela, Fátima Fernandes da Silva, José Pedro Sousa, Isabel Araújo Branco, Isabel Dâmaso Santos, Margarida Borges, Rita Bueno Maia, Sara Rodrigues de Sousa (eds.), Diálogos Ibéricos e Iberoamericanos: Actas del VI Congreso Internacional de ALEPH, Lisboa: Centro de Estudos Comparatistas & Editorial Academia del Hispanismo, 926-940.


Notas

Há uma tradução do texto que aparentemente deriva não do texto latino, mas de uma cópia em vernáculo. É um texto que integra um exemplar português da obra Flos Sanctorum que se encontra na Biblioteca Nacional de Portugal (Ho flos sanctõ[rum] em lingoaje[m] p[or]tugue[s]), com a cota RES. 157 A (a história de Barlaão encontra-se entre os fólios 73v e 78v).

Esta obra, edição de 1513 impressa em Lisboa por Hermão de Campos que compila mais de duas centenas de textos, segundo as notas do catálogo é uma versão livre da Leyenda Aurea de Jacopo de Voragine.

A obra é composta por perto de trezentos fólios (alguns estão desaparecidos e outros estão degradados) a duas colunas em papel e é encadernada em pergaminho. As folhas têm a dimensão de 263 x 200 mm e está escrita em gótica, possuindo iluminuras. Anteriormente, a obra pertenceu a Dom João de Melo Manuel da Câmara Medeiros, Conde da Silvã e Francisco de Melo Manuel da Câmara (Cabrinha).