Virtuosa Benfeitoria

Número

pt.002

Título

Livro da Virtuosa Bemfeitoria

Virtuosa Bemfeitoria

Livro da Vertuosa Benfeytoria

Tratado da Virtuosa Benfeitoria

Dos Benefícios

Fonte latina original

De Beneficiis (lt.002)

Localização textual

Obra com o mesmo nome.

Língua(s)

Português antigo

Tradutor

 

D. Pedro, Duque de Coimbra (Lisboa, 09/01/1392 – Alfarrobeira, 20/05/1449), quarto filho de D. João I e D. Filipa de Lencastre, pertenceu à chamada Ínclita Geração, que marcou a história e a política de Portugal. Ficou conhecido como o ‘Infante das Sete Partidas’ pelas muitas viagens que efetuou e que lhe permitiram alargar a sua visão política e cultural. De regresso a Portugal, é regente durante a menoridade do futuro Afonso V e responsável por diversas modificações políticas e culturais.

É coadjuvado, na tradução desta obra, por Frei João Verba, seu confessor à época da elaboração da tradução. Segundo uma bula do Papa Martinho V (Roma, 18 de fevereiro de 1423), por pedido expresso de D. Pedro, Frei João Verba, sacerdote dominicano licenciado em Teologia e capelão pontifício, foi nomeado prior do mosteiro de S. Jorge de Coimbra. Anteriormente, e segundo documentos dominicanos agora na Torre do Tombo, seria um frade pregador residente do convento de S. Domingos de Lisboa (1412), sendo que, na altura, era apenas bacharel em Teologia. Terá falecido entre 10 de abril e 22 de novembro de 1435 (Dinis, 1956 e 1957).

Contextualização da tradução

 

Tradução para Português Medieval do tratado de Séneca De Beneficiis, dando origem, assim, ao que é considerado o primeiro tratado de filosofia e política moral e ético escrito em língua portuguesa. O texto possui uma intenção didática, procurando dar indicações sobre qual a melhor conduta de um príncipe

O texto começou a ser elaborado num período de guerra com Castela, pelo que D. Pedro interrompeu os trabalhos para se dedicar a tarefas bélicas. No entanto, e por insistência de seu irmão, D. Duarte, incumbiu o seu confessor, Frei João Verba, de continuar o trabalho, revendo e corrigindo e acrescentando o que considerasse necessário. Aquilo que seria provavelmente uma tradução simples do De Beneficiis tornou-se então um texto ampliado e comentado do mesmo tratado, havendo passagens cuja densa erudição é atribuída ao sacerdote (Gomes, 1993: 681, 683; Afonso, 2007: 106).

Data

A tradução foi realizada entre 1418 e 1433 no máximo. Segundo Pereira (1981: 318), a data de fim da tradução pode recuar até 1425, embora tal limite não seja consensual (Arnaut, 1993: 183-184; Soares, 1994: 246, n. 5; Gomes, 1993: 681).

Local

Desconhecido

Alterações de estrutura/conteúdo

 

A tradução levada a cabo por D. Pedro e Frei João Verba, embora se baseie no tratado de Séneca, apresenta bastas diferenças, não só de conteúdo, mas também de estrutura. Em termos de conteúdo, conserva variadas passagens da obra que lhe deu origem, mas engloba também matéria retirada de outros pensadores, tanto da Antiguidade Clássica, como cristãos.

Em termos de estrutura, a obra divide-se em seis livros, cada um dos quais com prólogo e conclusão. A organização é a seguinte:

- livro I – distinção dos vários tipos de benefícios;

- livro II – modo como devem ser atribuídos;

- livro III – modo como devem ser requeridos;

- livro IV – modo como devem ser recebidos;

- livro V – formas de agradecimento;

- livro VI – indicação sobre o que pode destruir a relação estabelecida entre autor e destinatário dos benefícios.

Interferências textuais

São inúmeras as interferências textuais presentes na obra. De facto, e ainda que a obra latina De Beneficiis seja a fonte principal da tradução, há passagens variadas que nos remetem para textos de autores antigos, como Cícero, Boécio ou Aristóteles. Para além disto, encontramos também sobretudo referências de autores cristãos, com São Tomás de Aquino ou Santo Agostinho e até excertos bíblicos (Martins, 1980: 239; Pereira, 1988: 375-376).

Este conjunto de interferências possivelmente deve-se ao auxílio prestado a D. Pedro por Frei João da Verba. De facto, é possível que o sacerdote, pelos estudos que possuía, tenha decidido incluir na tradução passagens de outros autores que lhe pareciam interessantes para complementar o pensamento de Séneca, sobretudo no caso dos autores cristãos.

Lista de testemunhos manuscritos

 

Há diversos testemunhos remanescentes, alguns da época, outras cópias posteriores:

a) Testemunho do século XV existente na Biblioteca Municipal Dom Miguel da Silva, em Viseu, sob a cota ‘Cofre: R.o 12’ (manid  1172, cnum 1124).

b) Manuscrito 9/5487 do século XV da Real Academia de la Historia de Madrid (Códice nº C/66). Surge na página 235 do Catálogo Geral de Manuscritos desta Academia. Cópia em microfilme deste manuscrito encontra-se na Biblioteca dos Serviços de Documentação da Universidade de Aveiro (manid  1070, cnum 1125).

c) Manuscrito do século XV. Encontra-se em Oxford, na Bodleian Library, sob a cota ‘Lyell MS 86’. (manid  1179, cnum 1135).

d) Cópias tardias:

1. Cópia de 1701-1740. Existe na Biblioteca Nacional de Portugal, sob a cota ‘COD 910’, sendo que a cota anterior era ‘B. 17-29’ (manid  5521, cnum 29111).

2. Cópia de 1813, existente na Academia de Ciências de Lisboa, sob a cota ‘MS. Az. 170’ (manid  1178, cnum 1134).

3. Cópia provavelmente de 1757, existente na Biblioteca Pública Municipal do Porto, sob a cota ‘Geral 1683’ (manid  2053, cnum 11460).

4. Cópia de 1813, existente na Biblioteca Pública Municipal do Porto, sob a cota ‘Geral 1682-c’ (manid  2054, cnum 11461).

5. Cópia de 1813, existente na Biblioteca Pública Municipal do Porto, sob a cota ‘Geral 1682-a’ (manid  1080, cnum 1126).

6. Manuscrito cujo paradeiro é desconhecido: trata-se de uma cópia de 1627, em pergaminho, que existia na biblioteca de D. Rodrigo da Cunha, Bispo do Porto (manid  4191, cnum 23456).

Lista de Edições antigas

Não existem edições impressas antigas.

Enquadramento dos testemunhos

 

a) O testemunho existente na Biblioteca Municipal Dom Miguel da Silva, em Viseu, é originário do convento da Cartuxa, em Évora, e dele surgiram as cópias seguintes:

1. cópia de 1701-1740 existente na Biblioteca Nacional de Portugal (cota: COD 910. Cota anterior: B. 17-29);

2. cópia de 1813, existente na Academia de Ciências de Lisboa (MS. Az. 170).

 

b) Não está determinado se o manuscrito 9/5487 da Real Academia de la Historia de Madrid (Códice nº C/66) se trata da versão original da tradução de D. Pedro ou de uma cópia. Este manuscrito engloba também uma versão elaborada por D. Pedro do Livro dos Oficios de Cícero.

 

c) O manuscrito de Oxford encontra-se incompleto, terminando no capítulo 8 do livro 6.

 

d) Há ainda três cópias mais tardias na Biblioteca Pública Municipal do Porto:

3. Cópia provavelmente de 1757;

4. Cópia de 1813;

5. Cópia de 1813.

 

6. A cópia tardia de 1627 encontra-se em parte incerta. Sabemos apenas que existia na biblioteca de D. Rodrigo da Cunha, Bispo do Porto.

 

Outros dados

a) O testemunho existente na Biblioteca Municipal Dom Miguel da Silva, em Viseu, do século XV, é em pergaminho e está encadernado em carneira sobre madeira. Possui 134 fólios de tamanho 284 x 200 mm, escritos a letra gótica semicursiva. Possui iluminuras. As suas cópias têm as seguintes características:

1. A cópia de 1701-1740 da Biblioteca Nacional de Portugal encerra o texto da Virtuosa Benfeitoria encontra-se entre os fólios 276r e 278v. Está escrita em papel e encadernada a cartão. Possui as dimensões de 310 x 210 mm.

2. A cópia de 1813, pertença da Academia de Ciências de Lisboa é em papel e possui 550 folhas, de tamanho 240 x 190 mm. A letra é cursiva e a encadernação é dourada, em marroquim.

 

b) O testemunho manuscrito da Real Academia de la Historia de Madrid, surge num códice iluminado com 228 fólios em pergaminho, numerados a lápis. Este códice tem as medidas de 28,5 x 20 cm e é encadernado a pergaminho. A letra é gótica caligráfica.

O texto da Virtuosa Benfeitoria surge entre os fólios 1r  e 141r, sendo seguido da Carta dedicatória a Dom Duarte (escrita por D. Pedro), entre os fólios 143r e 144v e do Livro dos Oficios (146r-228r). O início dos capítulos é marcado por uma letra capital dourada.

 

c) O manuscrito de Oxford é em papel e tem as dimensões de 288 x 220 mm. Tem 168 fólios escritoa a cursiva e encadernados a couro lavrado sobre madeira.

 

d) As três cópias mais tardias da Biblioteca Pública Municipal do Porto têm as seguintes características:

3. Cópia provavelmente de 1757: é em papel e possui 197 fólios, com as seguintes medidas: 308 x 206 mm. A letra é cursiva e a encadernação é em carneira.

4. Cópia de 1813: é em papel, tendo cerca de 22 fólios de tamanho 245 x 196 mm. A letra é cursiva.

5. Cópia de 1813: é em papel e tem cerca de 303 fólios de tamanho 242 x 190 mm. A letra é cursiva e a encadernação é em carneira.

 

6. Do testemunho tardio de 1627, cujo paradeiro é desconhecido, sabemos apenas que é uma cópia em pergaminho.


Edições

 

ALMEIDA, M. Lopes (dir.). (1981). O Livro da Virtuosa Bemfeitoria – Obras dos Príncipes de Avis. Porto: Lello & Irmão, 525-763.

CALADO, Adelino de Almeida (ed.) (1994). Livro da Vertuosa Benfeytoria. Coimbra: Universidade de Coimbra.

FERREIRA, Luís Afonso (1948), 'O Livro de Virtuosa Bemfeyturia' do infante Dom Pedro com a colaboração do licenciado Fr. João Verba. Esboço de edição crítica do Primeiro Livro com introdução Histórico-Literária, restituição de texto, comentário paleográfico e ortográfico e pequeno glossário. Tese de licenciatura. Coimbra: Universidade de Coimbra - Faculdade de Letras.

SILVA, Gerson Gonçalves (1999). O Livro da Virtuosa Benfeitoria, do Infante Do Pedro. São Paulo: Universidade de São Paulo.


Estudos

Bases de dados online:

Philobiblon - BITAGAP:

- texid 1101;

- manid 1172, manid 1070, manid 1179, manid 5521, manid 1178, manid 2053, manid 2054, manid 1080, manid 4191;

- cnum 1124, cnum 1125, cnum 1135, cnum 29111, cnum 1134, cnum 11460, cnum 11461, cnum 1126, cnum 23456.

 

Referências bibliográficas:

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Notas