Livro dos Ofícios

Número

pt.001

Título

Livro dos Oficios de Marco Tullio Ciceram

Fonte latina original

De officiis (lt.001)

Localização textual

Obra com o mesmo nome: Livro dos Oficios de Marco Tullio Ciceram o qual tornou em linguagem o Ifante D. Pedro, Duque de Coimbra

Língua(s)

Português antigo

Tradutor

 

D. Pedro, Duque de Coimbra (Lisboa, 09/01/1392 – Alfarrobeira, 20/05/1449), quarto filho de D. João I e D. Filipa de Lencastre, pertenceu à chamada Ínclita Geração, que marcou a história e a política de Portugal. Ficou conhecido como o ‘Infante das Sete Partidas’ pelas muitas viagens que efetuou e que lhe permitiram alargar a sua visão política e cultural. De regresso a Portugal, é regente durante a menoridade do futuro Afonso V e responsável por diversas modificações políticas e culturais.

A tradução do Livro dos Oficios é-lhe  atribuída (ainda que no códice esteja ausente o nome do tradutor) por várias razões (Piel,1948: v-viii e xvii-xix; Lorenzo, 1993):

- autores coevos, como Rui de Pina, atribuem-lhe a tradução desta obra;

- no rol da livraria de D. Duarte, menciona-se a existência de uma tradução levada a cabo por D. Pedro: Marco Tullio, o qual tirou em lingoajem o Ifante D. Pedro;

- há referências a outras obras do género, entretanto perdidas, que terão sido traduzidas pelo Infante (por exemplo, o Epitoma Rei Militaribus de Vegécio);

- a dedicatória do livro, bastante semelhante à da Virtuosa Benfeitoria (da autoria de D. Pedro), faz alusões à sua vida.

Contextualização da tradução

 

Tradução para Português antigo do tratado ciceroniano De officiis.

Até ao momento, representa a primeira tradução portuguesa integral na Idade Média de um autor clássico e sem qualquer relação com a Igreja (Piel 1948: xxii).

Segundo a dedicatória, a D. Duarte, a obra latina De officiis terá sido oferecida a D. Pedro por D. Fernando, seu irmão. Convencido da importância da obra (Cícero era um autor muito considerado à época) e instigado por alguns congéneres, o Infante resolve traduzi-la para a disponibilizar a um público mais alargado, ainda que tenha noção das suas dificuldades linguísticas. É possível que, nesta sua resolução, tenha também sido estimulado pelo aparecimento de uma tradução castelhana da mesma obra, da autoria de Alfonso de Cartagena (Piel 1948: viii-xvii; Lorenzo 1993: 416-417).

Data

Segundo Piel (1948: xx), a redação da tradução deverá ter ocorrido entre 1433 e 1438 (morte de D. Duarte, rei de Portugal e irmão do Infante D. Pedro, a quem a obra é dedicada).

Local

Desconhecido.

Alterações de estrutura/conteúdo

 

Tratado filosófico, tradução do tratado ciceroniano De officiis que se debruça sobre as obrigações do homem, em especial dos governantes. Respeita o conteúdo da obra latina que lhe esteve na origem, apresentando, assim, uma divisão em três livros. Não obstante, D. Pedro inclui uma inovação: cria títulos não apenas para cada um dos livros, mas também para as diversas secções da obra. Para além disto, inclui uma dedicatória inicial (a D. Duarte, seu irmão) e termina a tradução com a saudação ‘Deo gracias’.

Interferências textuais

Não existem interferências de outros textos.

Lista de testemunhos manuscritos

 

1. Manuscrito 9/5487 da Real Academia de la Historia de Madrid (Códice nº C/66). Surge na página 235 do Catálogo Geral de Manuscritos desta Academia. Cópia em microfilme deste manuscrito encontra-se na Biblioteca dos Serviços de Documentação da Universidade de Aveiro.

2. Há uma cópia parcial do texto (situada nos fólios 62v-63v) no Leal Conselheiro que se encontra no testemunho pertencente ao Fonds Portugais 5 da Bibliothèque Nationale de France [Richelieu], de que é possível fazer download (o texto do Livro dos Oficios encontra-se nas páginas 136-138 do documento em pdf).

Lista de Edições antigas

Não existem edições impressas antigas.

Enquadramento dos testemunhos

 

1. Conhecemos apenas um único testemunho manuscrito completo (manuscrito 9/5487 da Real Academia de la Historia de Madrid (Códice nº C/66)), não estando determinado se se trata da versão original da tradução de D. Pedro ou de uma cópia. Este manuscrito engloba também uma versão da Virtuosa Benfeitoria.

2. Há ainda uma transcrição parcial desta tradução no testemunho manuscrito do Leal Conselheiro (fólios 62v-63v que se encontram no testemunho pertencente ao Fonds Portugais 5 da Bibliothèque Nationale de France [Richelieu]). Segundo informação da BNF, este manuscrito foi copiado em Portugal no século XV (1433-1438) e engloba ainda, depois do índice (f. 1-2v) e da cópia do Leal Conselheiro (f. 3-96), cópia do Livro da enssynança de bem cavalgar toda sela (f. 99-128).

Outros dados

1. O testemunho manuscrito da Real Academia de la Historia de Madrid, datado do século XV, surge num códice com 228 fólios em pergaminho, numerados a lápis. Este códice tem as medidas de 28,5 x 20 cm e é encadernado a pergaminho. O texto do Livro dos Oficios surge entre os fólios 143r  e 228r, sendo antecedido pelo texto da Virtuosa Benfeitoria. O início dos capítulos é marcado por uma letra capital dourada. Este manuscrito apresenta elementos heráldicos relacionados com D. Pedro – a sua divisa e emblema –, pelo que se levanta a hipótese de ter sido propriedade do Infante (Abascal Palazón e Cebrián, 2005, 511; Nascimento, 2006, 279).

2. Segundo informação da BNF, a cópia parcial do testemunho do Leal Conselheiro encontra-se num manuscrito, datado do século XV, com 128 fólios em pergaminho com as medidas de 40,5 × 28,2 cm. O texto, escrito em letra cursiva, divide-se em duas colunas com iniciais pintadas/ornamentadas.

Edições

 

PIEL, Joseph M., ed. (1948). Livro dos oficios de Marco Tullio Ciceram, o qual tornou em linguagem o Ifante D. Pedro, duque de Coimbra. Edição crítica, segundo o MS. de Madrid. Coimbra: Universidade de Coimbra.

ALMEIDA, Manuel Lopes de, ed., (1981), Livro dos ofícios, in: Obras dos príncipes de Avis, Porto: Lello e Irmão, 765-884.


Estudos

Bases de dados online:

Philobiblon – BITAGAP: Texid 1102; Manid 1070; Manid 1154; Cnum 1087; Cnum 19264


Referências bibliográficas:

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Notas