Textos latinos‎ > ‎

De Auibus

Número

lt.017

Título

De Auibus (livro primeiro da obra De Bestiis et Aliis Rebus).

O texto pode surgir com outros nomes: De columba deargentata, De tribus columbis, De natura avium, Aviarium ou Libellus quidam ad Rainerum conversum cognomine Corde Benignum

Texto a que deu origem

Livro das Aves (pt.017)

Autor

O manuscrito latino que dá origem à tradução portuguesa é da autoria de Hugo de Folieto, embora de início tenha sido atribuído a Hugo de S. Vítor.

Hugo de Folieto, também conhecido como Hugues de Fouilloy, Hugo Folietanus, Hugo de Fouilloy ou Hugues de Fouilloi,nasceu em Fouilloy, perto de Amiens, em data incerta (talvez entre1096 e 1111), tendo falecido por volta do ano de 1172. Pouco se conhece da sua vida, embora se saiba que se juntou, ainda jovem, a uma comunidade religiosa (Ordem de Santo Agostinho em St.-Laurent-au-Bois ou St.-Laurent-d'Heilly), tornando-se prior da dependência da Ordem em St.-Nicholas-de-Regny em 1132. Mais tarde, em 1152, foi eleito prior de St.-Laurent.

Escreveu obras de espiritualidade monástica como De claustro animae ou De medicina animae, sendo-lhe atribuídas ainda obras como De nuptiis, De pastoribus et ouibus, De rota uera et falsa religionis e a tradução De auibus. Esta última obra sofreu muitas influências de uma obra da Antiguidade Clássica – o Fisiólogo –, cujo autor não é conhecido. A primeira tradução latina (e cristã) do Fisiólogo é atribuída a vários autores: Orígenes, Santo Ambrósio, São João Crisóstomo, São Jerónimo, etc. (Gonçalves, 1999: 11; Varandas, 2006: 5).

Língua

Latim

Caracterização

Tratado moral, pertencente a um tipo de textos que descrevem alegorias relacionadas com animais (comummente denominados ‘bestiários’), que compila características de aves e seus costumes de um modo fantástico e recorrendo a uma interpretação simbólica e alegórica, eivada de considerações teológicas. Tem, assim, um propósito moral e didático, pelo que as pequenas descrições efetuadas funcionam como exempla (possuem um fundo moral, sendo usadas como fonte de ensinamentos).

Data

O tratado De auibus terá sido escrito provavelmente entre 1132 e 1152.

Local

Hugo de Folieto escreveu a obra que deu origem à tradução portuguesa provavelmente quando era prior em St.-Nicholas-de-Regny.

Contexto da redação do texto original

O manuscrito tinha cerca de 60 capítulos e dividia-se em duas partes: o livro I era denominado De Auibus e o livro II era dedicado aos mamíferos. Segundo a classificação dos manuscritos do Fisiólogo (como se pode ver mais abaixo), pertence à Família I.

Para além do Fisiólogo, esta obra de Hugo de Folieto também recolhe informações da Bíblia e de obras de outros autores, como S. Gregório Magno, Santo Isidoro de Sevilha, Hrabanus Maurus, Santo Ambrósio ou São Jerónimo. Segundo Clark (1992, 12), alguns dados do texto permitem concluir que, para além destes autores cristãos, Hugo de Folieto também conhecia textos, por exemplo, de Plínio, Ovídio ou Varrão.

Relação com o Fisiólogo:

A obra grega Fisiólogo ou Naturalista – escrita em Alexandria entre os séculos I e III – terá estado na origem dos chamados ‘bestiários’, sendo uma das grandes influências do De auibus. A obra original desapareceu (conhece-se apenas uma retradução), mas a sua popularidade foi tal que rapidamente surgiram traduções em várias línguas. É possível que a primeira tradução em latim tenha surgido por volta do século V (o Decretum Gelasium, do Papa Gelásio – 492-496 – engloba entre os livros proibidos um Fisiólogo latino), embora os manuscritos em latim mais antigos que conhecemos remontem ao século VIII. Com o tempo, a estrutura do Fisiólogo foi-se modificando e, no século XII, o texto é reorganizado de acordo com a proposta de Santo Isidoro de Sevilha no Livro XII – De Animalibus – das Etimologias. Partes desta obra vieram depois a ser adicionadas ao Fisiólogo latino, tal como acontece com a História Natural de Plínio, textos bíblicos ou o Poyhistor (ou Collectanea rerum memorabilium) de Solino.

Com o tempo, surgiram variadas versões e traduções do Fisiólogo e os bestiários conheceram, assim, um grande desenvolvimento. No século XX, M.R. James e Florence McCulloch dedicaram-se a classificar e organizar os manuscritos existentes, propondo para eles uma ordem específica. Segundo esta classificação, os manuscritos latinos são os que seguem mais de perto o original grego (Varandas: 2006, 5-9).

Versões existentes e sua localização

Segundo Clark (1992, 27-30), há perto de uma centena de manuscritos que contêm o De Avibus, juntamente com outros textos, sendo que mais antigo manuscrito data do séc. VIII.. Estes manuscritos estão divididos em 5 grupos, que derivariam de dois modelos (ambos perdidos). Os testemunhos existentes em Portugal pertencem ao grupo do Mosteiro de Heiligenkreuz (Áustria), talvez o mais próximo do original. Nele se incluem, assim, o manuscrito do Mosteiro do Lorvão, o do Mosteiro de Alcobaça e o de Santa Cruz de Coimbra.

Estes três testemunhos são cópias diferentes do Livro das Aves mas parecem ter relações entre si, o que indicia que terão sido copiadas a partir de um modelo comum, provavelmente com origem em Coimbra, já que Santa Cruz era um Mosteiro da Ordem dos Agostinhos, a que Hugo de Folieto pertencia (Clark (1992, 44-45))::

- cópia procedente do Mosteiro do Lorvão (datado de 1184), é talvez a mais antiga cópia conhecida e encontra-se em Lisboa, no Arquivo Nacional Torre do Tombo (MS. 90 – atualmente Casa Forte, 90: PT-TT-MSML/B/5);

- cópia procedente do Mosteiro de Alcobaça (1200-1210), encontra-se em Lisboa, na Biblioteca Nacional (MS. ALC. 238-c);

- cópia procedente do Mosteiro do Santa Cruz de Coimbra (início do séc. XIII), encontra-se no Porto, na Biblioteca Pública Municipal( MS. 43).

 

Aparentemente, a tradução portuguesa não derivou de nenhum destes testemunhos.


Estudos

Base de dados online:

http://www.arlima.net/eh/hugues_de_fouilloy.html#avi

 

Referências bibliográficas:

 BERLIOZ, Jacques e CORDONNIER, Rémy (2004), Le convers et les oiseaux. Monde animal, morale et milieu monastique: le De avibus d'Hugues de Fouilloy (XIIe siècle) , In Homme-animal, histoires d'un face à face, catalogue de l'exposition de Strasbourg (Galerie Heitz, Musée archéologique, Musée de l'oeuvre Notre-Dame, Musée d'art moderne et contemporain, 7 avril-4 juillet 2004), Paris: Adam Biro; Estrasburgo:Musées de Strasbourg, 73-81, 125.

BIBOLET, Françoise (1984), Portraits d'oiseaux illustrant le De avibus d'Hugues de Fouilloy (manuscrit de Clairvaux, Troyes 177), In CHAUVIN, Benoît (ed.) Mélanges à la mémoire du Père Anselme Dimier, Arbois: Pupillin, , t. 2, vol. 4, 409-447.

CARLINO, Laura (1992), L'illustrazione dell'Aviarium di Ugo di Folieto nel cod. 199 della Biblioteca Statale di Cremona, In CECCANTI, Melania e CASTELLI, Maria Cristina (eds.), Codice miniato: rapporti tra codice, testo e figurazione. Actes du 3e congrès d'histoire de la miniature (Cortone, 20-23 oct. 1988), Florença: Olschki, 327-335.

CARLINO, Laura (1988), Un manoscritto spagnolo in Lombardia: il cod. 199 della Biblioteca Governativa di Cremona, Miniatura 1, 19-35.

CARMODY, Francis J. (1938), De bestiis et aliis rebus and the Latin Physiologus, Speculum 13, 153-159.

CLARK, Willene B. (1992). The Medieval book of birds : Hugh of Fouilloy's De avibus. Binghamton, NY.

CLARK, Willene, B. (1990), The aviary-bestiary at the Houghton Library Harvard. In CLARK, Willene B. e MCMUNN, Meradith T. (eds.), Beasts and Birds of the Middle Ages: The Bestiary and its Legacy, Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 26-43.

CLARK, Willene, B. (1982), The illustrated medieval aviary and lay brotherhood, Gesta 21, 63-74.

CORDONNIER, Rémy (2004), Des oiseaux pour les moines blancs: réflexions sur la réception de l'Aviaire d'Hugues de Fouilloy chez les cisterciens, La vie en Champagne 38, 3-12.

CORDONNIER, Rémy (2009), Enluminure et spiritualité: le sens du signe et ses difficultés. In Histoire et images médiévales, Thématique 15: les arts de la couleur, 24-29.

CORDONNIER, Rémy (2010), La plume dans l'Aviarium d'Hugues de Fouilloy: sénéfiance(s) d'une "propriété" aviaire. nIn Pomel, Fabienne (ed.), La corne et la plume dans les textes médiévaux, Rennes: Presses universitaires de Rennes, 167-202.

CORDONNIER, Rémy (2005), Haec pertica est regula. Texte, image et mise en page dans l'Aviarium d'Hugues de Fouilloy. In VAN DEN ABEELE (ed.), Bestiaires médiévaux. Nouvelles perspectives sur les manuscrits et les traditions textuelles. Communications présentées au XVe colloque de la Société internationale renardienne (Louvain-la-Neuve, 19-22.08.2003), Louvain-la-Neuve: Publications de l'Institut d'études médiévales de l'Université catholique de Louvain, 71-110.

CORDONNIER, Rémy (2010), Un 128e exemplaire de l'Aviarium de Hugues de Fouilloy: Bruxelles, KBR, MS. II 2313, Signum 11:1, 358-411.

DE CLERCQ, Charles (1963), Hugues de Fouilloy, imagier de ses propres oeuvres?, Revue du Nord, 45, 31-43.

DE CLERCQ, Charles (1970), La nature et le sens du De avibus d'Hugues de Fouilloy, In ZIMMERMANN, Albert e HOFFMANN, Rudolf, Methoden in Wissenschaft und Kunst des Mittelalters, Berlin, de Gruyter (Miscellanea Mediaevalia, 7), 279-302.

EDSALL, Mary-Agness (2003),"True anchoresses Are called birds": asceticism as ascent and the purgative mysticism of the Ancrene Wisse, Viator 34, 156-186.

FEISS, Hugh e PEPIN, Ronald (1994), Birds in Beinecke ms 189, Yale University Library Gazette 68, 110-115.

FINNAZZI-AGRÒ, E. (1993), "Bestiários" in Dicionário de Literatura Medieval Galega e Portuguesa, org. G. Lanciani e G. Tavani, Lisboa, Caminho, 83-85.

GONÇALVES, Maria Isabel Rebelo (trad.) (1999), Livro das aves – Hugo de Folieto. Lisboa: Colibri.

GONÇALVES, Maria Isabel Rebelo (1993), "Livro das Aves" in Dicionário de Literatura Medieval Galega e Portuguesa, org. Lanciani, G. e Tavani, G., Lisboa, Caminho, 404-405.

HÄRING, Nicolas Martin (1979), Notes on the Liber avium of Hugh of Fouilloy. Recherches de théologie ancienne et médiévale 46, 53-83.

MEIRINHOS, José Francisco (1995), A escrita nos códices de Santa Cruz de Coimbra. Porto: Biblioteca Pública Municipal.

MIGNE, Jacques-Paul (1844-1865) Patrologia Latina. In http://pld.chadwyck.com/.

OHLY, Friedrich (1968), Probleme der mittelalterlichen Bedeutungsforschung und das Taubenbild des Hugo des Folieto. Frühmittelalterlischen Studien 2, Berlin, De Gruyter, 162-220.

OHLY, Friedrich, NORTHCOTT, K. J. (trad.), JAFFE, Samuel (ed.) (2005), Sensus Spiritualis: Studies in Medieval Significs and the Philology of Culture, Chicago: University Of Chicago Press, 68-135.

SAINTE-MARIE, Martine (1993), Note sur un "traité des oiseaux" conservé parmi les manuscrits de la Société archéologique de Montpellier. In ROMESTAN, Guy (ed.), Hommage à Robert Saint-Jean: art et histoire dans le Midi languedocien et rhodanien (Xe-XIXe s.), Mémoires de la Société archéologique de Montpellier 21, 393-401.

SANSON, Manuela e ZAMBON, Francesco (1987), Pictura e scriptura la symbologia della colomba nel De avibus di Ugo di Fouilloy, Rivista di storia e letteratura religiosa 23:1, 37-67.

VAN DEN ABEELE, Baudouin (2003), Trente et Un Nouveaux Manuscrits de l'Aviarium: Regards sur la Diffusion de l'Œuvre d'Hugues de Fouilloy. Scriptorium 57:2, 253-271.

VARANDAS, Angélica (2006), A Idade Média e o Bestiário. Medievalista on line ano 2, número 2, IEM - Instituto de Estudos Medievais. In www.fcsh.unl.pt/iem/medievalista, página 5